POOL | REUTERS
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Obama entra na campanha pela permanência da Grã-Bretanha na UE

Visita oficial. Em Londres, presidente diz que ‘Brexit’ impede que britânicos participem de acordo de livre comércio que será firmado entre bloco e EUA; declarações irritam eurocéticos, que acusam americano de ‘intromissão’ no plebiscito de junho

Andrei NettoCORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2016 | 06h56

A Grã-Bretanha reduzirá sua influência geopolítica e terá perdas econômicas e comerciais se abandonar a União Europeia. A advertência foi feita ontem, em Londres, pelo presidente dos EUA, Barack Obama, que pediu aos eleitores britânicos que votassem pelo “não” à saída da UE (o chamado “Brexit”) no plebiscito que será realizado em junho.

A declaração foi feita no dia da chegada do presidente americano a Londres, onde realiza visita oficial de quatro dias, e provocou a reação irada dos partidários do rompimento, que lembraram a ascendência queniana de Obama. O alerta lançado por ele foi seu mais forte posicionamento sobre a votação convocada pelo primeiro-ministro britânico, David Cameron, a respeito da integração com a UE.

No momento em que pesquisas de opinião revelam um empate técnico entre os dois lados, com 50% para cada um, a intervenção do presidente americano caiu como uma bomba na disputa. Sua demonstração de apoio à campanha do “não” foi feita em artigo publicado na noite de quinta-feira pelo jornal Daily Telegraph.

Obama argumentou que a “União Europeia não diminui a influência britânica, ela a amplifica”. “Os EUA e o mundo precisam que sua enorme influência persista, até mesmo no interior da Europa”, escreveu o presidente.

Repercussão. As colocações repercutiram com força na manhã de ontem, quando o presidente voltou a ressaltar sua posição, mas de outro ponto de vista: o econômico e financeiro. Obama alertou que, caso abandone a União Europeia, a Grã-Bretanha deixará o acordo de livre comércio europeu e, com isso, não estará incluída no futuro tratado transatlântico que vem sendo negociado entre Washington e Bruxelas, que formará a maior área de livre comércio do planeta.

“Alguns pensam que talvez venha a haver um acordo de livre comércio entre EUA e Grã-Bretanha, mas isso não ocorrerá tão cedo. A Grã-Bretanha irá para o final da fila”, afirmou Obama, reiterando a importância da União Europeia. “Nós estamos concentrados nas negociações com o grande bloco.”

Os argumentos reforçam o discurso do meio empresarial e da City, o centro financeiro britânico, que estão em campanha aberta pela manutenção do atual status do país no bloco. Por outro lado, a posição americana provocou a ira dos partidários do “sim” ao Brexit, até mesmo dentro do Partido Conservador, o mesmo de Cameron.

Em resposta a Obama, o prefeito de Londres, Boris Johnson, figura central do euroceticismo entre os conservadores, atacou o presidente americano por sua suposta “hipocrisia” e “incoerência” em artigo publicado pelo jornal sensacionalista The Sun.

Resposta. Na tentativa de rebater o presidente, Johnson usou até do discurso do Tea Party americano para tentar desqualificá-lo, lembrando a ascendência de um de seus avôs, que foi criado no país africano. “Alguns dizem que ele esnobava os britânicos”, afirmou o prefeito. “Outros dizem que ele é o símbolo da aversão ancestral ao Império Britânico de um presidente em parte queniano.”

Johnson afirmou ainda que Obama teria mandado retirar um busto de Winston Churchill, primeiro-ministro conservador britânico que liderou a Europa na luta contra a Alemanha na 2.ª Guerra.

O problema é que o busto havia de fato sido retirado, mas antes de 2009, e por ordem de seu predecessor na Casa Branca, George W. Bush, presidente republicano muito próximo ao ex-primeiro-ministro trabalhista britânico Tony Blair.

As críticas de Johnson levaram o porta-voz de Downing Street, a sede do poder britânico, a tentar encerrar a polêmica sugerindo-lhe que simpatizantes do “não” e do “sim” ao Brexit “se concentrem nos fatos”.

No entanto, a extrema direita da Grã-Bretanha, liderada por Nigel Farage, do Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip), usou os mesmos argumentos para tentar desacreditar o presidente americano.

“Obama não gosta muito dos britânicos. Seu avô cresceu no Quênia, uma ex-colônia britânica. É algo que ainda está atravessado em sua garganta”, disparou o líder eurocético e xenofóbico. Para Farage, a posição da Casa Branca é “uma ingerência indesejável da parte do presidente americano, o mais anti-britânico que jamais existiu”. “Felizmente, ele deixará em breve suas funções”, completou Farage.

“Alguns pensam que haverá um acordo de livre comércio entre EUA e Grã-Bretanha, mas isso não ocorrerá tão cedo. A Grã-Bretanha irá para o final da fila”

 

“Os EUA e o mundo precisam que sua enorme influência (britânica) persista, até mesmo no interior da Europa”

Barack Obama

PRESIDENTE DOS EUA

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