Obama entra sem estardalhaço na guerra

Presidente deixou a cargo de sua secretária de Estado, que estava em Paris, o anúncio do começo da terceira guerra americana ao mundo muçulmano em uma década

Bob Drogin, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2011 | 00h00

Não é assim que os presidentes americanos vão à guerra. O ato inaugural supostamente deve ter o presidente sentado solenemente no Salão Oval, explicando as razões, expondo as metas, falando duro. Barack Obama nem sequer anunciou o começo da terceira guerra americana no mundo muçulmano em uma década. Ele deixou isso a cargo de sua secretária de Estado que estava em Paris, ao lado de um presidente francês que alguns meses atrás queria fazer mais negócios com o ditador líbio Muamar Kadafi e agora reivindica o crédito por liderar ataques aéreos contra ele.

Quando Obama apareceu horas depois, ele estava num púlpito no fundo de um centro de convenções em Brasília, capital de um país que não votou pela resolução do Conselho de Segurança da ONU autorizando o uso de força militar. Ele teve dificuldade de assinalar que a missão americana será limitada e não inclui tropas terrestres americanas. E salientou que as forças americanas estavam agindo como parte de uma coalizão que estava aplicando a vontade internacional.

Há uma explicação para a relutância de Obama em se lançar à guerra como seu antecessor George W. Bush. Este é um empreendimento delicado: utilizar poder militar americano num mundo árabe ainda injuriado com a invasão do Iraque em 2003, num momento em que seus líderes - alguns deles aliados de longa data - estão enfrentando a deposição por seus próprios povos.

Mas Obama aderiu à causa dos rebeldes líbios ao declarar que Kadafi devia sair durante os primeiros dias gloriosos do levante quando eles pareciam estar marchando para Trípoli. Quando se mostraram incapazes de derrubar o ditador, Obama e seus aliados ficaram ante a perspectiva de Kadafi se manter, massacrar sua oposição, e deixar o presidente americano vulnerável a alegações de que permitiu que a maré de democracia árabe fosse rechaçada.

O uso de força militar para desalojar Kadafi requereu solicitar ajuda e cobertura política de vizinhos árabes de Kadafi. Mas mesmo alguns que apoiam a intervenção argumentam que Obama falhou ao não explicar claramente por que lançou ataques aéreos contra um déspota na Líbia, mas foi incapaz de refrear autocratas apoiados pelos EUA na Arábia Saudita, Bahrein e Iêmen de dispararem balas de verdade contra manifestantes pró-democracia.

Foi por isso que Obama se deu ao trabalho de mostrar que os EUA estavam ocupando um papel secundário no caso todo, apesar de eles estarem claramente dirigindo os eventos e lançando salvas mortais de mísseis Tomahawk contra o país norte-africano. "O que estamos vendo é Obama fazendo uma escolha clara de no mínimo dar a impressão de que outros estão liderando essa intervenção", disse Ash Jain, um ex-funcionário sênior do Departamento de Estado. "Isso é uma mudança real."

Obama enfrentou opções entre ruins e terríveis desde que o levante árabe começou na Tunísia há três meses e se espalhou, engolindo tanto inimigos como aliados. Embora ele não tenha pedido a saída de Kadafi no sábado, a visão da Casa Branca "ainda é que ele perdeu a legitimidade e não pode ficar. Mas há muitas jogadas de xadrez até lá". / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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