Obama escapa de todos os rótulos

O senador Barack Obama se apresenta como um unificador que resolverá os problemas dos EUA estendendo a mão para oponentes e superando os rótulos de liberal e conservador, os quais rejeita como sendo inúteis e obsoletos. No momento em que Obama avança para as últimas primárias, porém, o senador John McCain e outros republicanos começam a rotulá-lo como um perfeito esquerdista, típico de uma longa linhagem de pretendentes democratas à Casa Branca.A campanha da senadora Hillary Clinton também começou a chamar Obama de "liberal" (adjetivo que nos EUA carrega uma conotação esquerdista). Hillary tem advertido que o apelo do senador entre os eleitores moderados diminuirá à medida que eles tomarem consciência das posições que ele adotou no passado, como o fim do embargo a Cuba.O ataque duplo tem levantado algumas perguntas sobre Obama. Até que ponto ele é um candidato de esquerda? Mesmo que seja realmente um tipo novo de candidato, será que ele conseguiria evitar velhos rótulos? Classificado como o senador mais "liberal" de 2007 pelo National Journal, Obama vem tentado escapar do rótulo.Apesar de sua plataforma ser de esquerda, ele as apresenta como uma resposta prática ao governo atual. Sua habilidade para atrair independentes - e republicanos - é um de seus principais atrativos para os democratas ansiosospara retomar a Casa Branca, e uma preocupação para os republicanos.Ao mesmo tempo, as críticas das campanhas de McCain e de Hillary provocaram respostas duras da campanha de Obama, cujos estrategistas reconhecem que os eleitores democratas estão preocupados com a elegibilidade de um candidato rotulado de "liberal". A capacidade do senador de escapar de todos os rótulos tem sido uma frustração para Hillary. Embora a campanha dela argumente que ele é "liberal" demais, Hillary tem se confundido ao dizer que ele é muito tolerante com Ronald Reagan e tímido demais sobre a reforma do sistema de saúde. "Ele está jogando um jogo completamente diferente. E Hillary não sabe como jogar esse jogo", disse Robert Reich, que trabalhou no governo de Bill Clinton. Na maioria das áreas, Obama tomou posições que, aos olhos republicanos, pareceriam de esquerda. Como Hillary, ele defende a ampliação do papel do Estado na saúde e pagaria por isso acabando com as isenções tributárias que o presidente George W. Bush deu para os mais ricos. Obama defende vigorosamente o aborto e, embora defenda a pena de morte para a maioria dos crimes "hediondos", luta por um controle da venda de armas e pela descriminalização da maconha.Em política externa, equilibra sua oposição à guerra no Iraque com planos para intensificar a perseguição à Al-Qaeda. Na visão de alguns republicanos, o que impede Obama de ser rotulado como o candidato mais "liberal" de todos os tempos é o tom pragmático e sua retórica conciliatória."A maneira como ele fala e se apresenta é antiideológica", disse Peter Wehner, que foi assessor adjunto de Bush. "Ele tem a capacidade de dar voz aos argumentos de outra pessoa mesmo que discorde deles. Todas essas coisas tornam mais difícil colocar um rótulo ideológico nele."Os aliados de Obama insistem que ele tem uma trajetória independente. Cass Sunstein, professor de Direito da Universidade de Chicago e consultor informal de Obama, disse que o candidato está imbuído de um respeito pelo livre mercado, uma escolha que os liberais nem sempre compartilham.Seus partidários argumentam também que o rótulo de "liberal" não cola em Obama em parte porque o ambiente público mudou em favor dele por causa de uma desilusão generalizada com as políticas republicanas, que confundiram as noções tradicionais de direita e esquerda.A maioria de suas propostas faz parte do cânone democrata - aumentos anuais do salário mínimo, aumento salarial para professores, dedução fiscal de US$ 4 mil para fomento da educação -, mas ele as apresenta como soluções práticas cujo atrativo deve ser óbvio, e não como produto de uma ponta do espectro político.Obama ironizou as novas críticas republicanas feitas em Austin, no mês passado. "Oh, ele é liberal", disse. "Não há nada de liberal em querer reduzir o dinheiro em política. Isso é senso comum. Não há nada de liberal em querer assegurar que todos tenham planos de saúde. Estamos gastando mais em assistência médica nos EUA do que qualquer outro país avançado. (...) Não deixem eles colocarem essas bobagens na cabeça de vocês."*Alec MacGillis escreveu este artigo para o ?Washington Post?

Alec MacGillis*, O Estadao de S.Paulo

29 de março de 2008 | 00h00

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