Obama está ausente na Síria

Casa Branca deveria adotar uma posição mais ativa no conflito para ter mais influência em um governo pós-Assad

Nicholas Kristof, The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2012 | 03h00

WASHINGTON - Os melhores momentos do presidente Barack Obama no campo da política externa, como o ataque a Osama bin Laden ou a intervenção na Líbia, resultaram de um envolvimento direto e de riscos calculados. Os deslizes surgem quando ele se mostra passivo ou ausente - como no caso da Síria.

No geral sou fã da política externa de Obama. No entanto, na questão da Síria há uma crescente perplexidade em todo o mundo diante do fato de que ele parece inerte diante da realidade. Os Estados Unidos não devem invadir a Síria. Contudo, o americanos precisam trabalhar com seus aliados para fornecer armas, treinamento e inteligência para os rebeldes que passam por seu escrutínio.

Estou em Aspen para a reunião anual do Aspen Strategy Group, grupo bipartidário que analisa assuntos internacionais e estou impressionado como muitos estrategistas que respeito entendem que está na hora de os Estados Unidos serem mais agressivos. William Perry, secretário da Defesa no governo de Bill Clinton, disse que se estivesse hoje no Pentágono recomendaria uma intervenção militar na Síria, desde que houvesse uma participação da Turquia e sem forças terrestres americanas.

Especificamente, ele defenderia o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea e de trânsito no norte da Síria.

"Não é uma estratégia plena, mas isso pode facilitar a derrubada de Assad e ter um benefício humanitário real", disse Perry. "Se der certo, pode nos ajudar a influenciar o governo pós-Assad. Se nos mantivermos de lado, não estaremos em posição de exercer alguma influência."

Madeleine Albright, que foi secretária de Estado no governo de Bill Clinton, diz que é "favorável à intervenção, mas não deve ser uma intervenção militar terrestre". "Temos de nos envolver mais nesse caso." Na minha opinião, existem três razões principais para agir na Síria.

Razões humanitárias. Em primeiro lugar, quanto mais tempo durarem os combates, mais a região ficará desestabilizada. A Síria está agora numa guerra civil associada a divisões entre sunitas e xiitas na região. Quanto mais mortes, mais refugiados e mais assassinatos por vingança, mais difícil será conseguir uma união.

Quanto mais tempo a guerra persistir, maior o risco de ela extravasar para Líbano, Iraque e Jordânia.

Em segundo lugar, acredita-se que Assad possui muitas toneladas de gás sarin e de agentes químicos VX. Essas armas químicas poderão acabar nas mãos de jihadistas ou no mercado negro global. Precisamos trabalhar com os rebeldes sírios para ajudar a protegê-las, se necessário.

A terceira razão é que existe um imperativo humanitário. O número de pessoas mortas na Síria é diversas vezes maior do que na Líbia quando teve início a intervenção e essas mortes vêm aumentando abruptamente.

Os manifestantes iniciaram seus protestos pacificamente, mas foram submetidos a uma violência atroz. Uma vítima emblemática foi um menino de 13 anos chamado Hamza al-Kateeb, preso numa manifestação contra o presidente Assad e depois sexualmente mutilado e torturado até a morte.

O que se pode fazer? Uma medida seria os Estados Unidos enviarem suas forças navais para a costa síria e Turquia e Israel mobilizarem suas tropas próximo das fronteiras com a Síria. Isso pressionaria os soldados sírios de modo que Assad ficaria com menos forças à disposição para assassinar seu povo.

Sem ação. Anne-Marie Slaughter, acadêmica de Princeton que integrou o alto escalão do governo Obama, ofereceu propostas sensatas para uma ação. Ela sugeriu que os Estados Unidos e outros países forneçam armas antiaéreas e antitanques para os rebeldes e, talvez, uma cobertura aérea para os comandantes que protegem os civis e procuram impedir os assassinatos por vingança. Alguns comandantes do Exército Sírio Livre (ESL) adotaram esse código de conduta.

Com nossos aliados, podemos também aconselhar os comandantes sírios no sentido de que, se abandonarem Assad, poderão ter um papel no futuro da Síria. Se ficarem com Assad, não terão.

Uma intervenção sempre pode fracassar e existem preocupações legítimas quanto ao comportamento dos rebeldes sírios. É fato também que um ano eleitoral não é o período ideal para uma intervenção, embora nesse caso Obama possa trabalhar com os republicanos para conseguir um apoio bipartidário.

Veja, não sou nenhum falcão. Fui vigorosamente contra a guerra do Iraque e o reforço de soldados no Afeganistão e sou resolutamente contrário à tendência, hoje, de uma guerra com o Irã. No entanto, a Síria, como a Líbia, é um caso raro em que podemos adotar medidas modestas que têm boas chances de acelerar a queda de um ditador. E, depois de 17 meses, há um consenso cada vez maior de que Obama não deve mais continuar apenas um espectador.

"O Oriente Médio necessita da liderança dos Estados Unidos na Síria", disse Nicholas Burns, antigo secretário adjunto de Estado e hoje professor em Harvard. "Defendo a estratégia do presidente para o Oriente Médio, no geral, mas seu governo tem sido totalmente reativo no caso da Síria. Todos os árabes estão se perguntando onde estão os Estados Unidos." Presidente Obama, qual a sua resposta? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É COLUNISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.