Obama está pronto para a ação

No discurso sobre o Estado da União, porém, presidente americano deixou inúmeras questões sobre a política externa americana - da Síria ao Irã - ainda sem respostas claras

DAN , LAMOTHE, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2014 | 02h04

O ditador sírio, Bashar Assad, está recuperando territórios perdidos e consolidando o controle de um país que parecia prestes a se livrar de sua tirania. O Iraque está novamente mergulhando na guerra civil e uma afiliada da Al-Qaeda naquele país exibe sua força numa área outrora em poder de soldados e fuzileiros navais americanos. O governo militar do Egito prende milhares de adversários políticos, suscitando sérias dúvidas quanto ao seu compromisso com a democracia. O delator da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês) Edward Snowden não para de revelar novos detalhes sobre a espionagem americana, comprometendo a confiança no governo da Barack Obama interna e externamente.

Entretanto, o presidente americano não se referiu a nenhuma dessas questões em seu discurso sobre o Estado da União. Em vez disso, concentrou suas proposições na política interna, prometendo tomar uma série de medidas para fortalecer a classe média, criar empregos e melhorar a vida das famílias americanas. Os discursos anuais de Obama costumam dar uma atenção especial às suas propostas de mudança da situação nacional. No entanto, seu discurso de terça-feira dedicou pouco tempo à política externa - e o pouco que ele falou a respeito não ofereceu nada de novo.

Foi o caso do Afeganistão, a "guerra boa", o ícone de Obama, que ele prometeu combater e ganhar na sua primeira campanha para chegar à Casa Branca. Cinco anos depois de sua primeira posse - e cerca de 13 anos após o início desta guerra - o presidente apresentou poucos detalhes sobre o que os EUA farão para impedir que o Afeganistão mergulhe no caos, se o presidente afegão, Hamid Karzai, se recusar a assinar um acordo de segurança que permite a permanência de um pequeno número de soldados americanos no país. Obama prometeu em várias ocasiões a retirada de todas as forças dos EUA do Afeganistão se o acordo não fosse assinado. Seria uma medida popular para o eleitorado, uma vez que o apoio à guerra afegã caiu a níveis historicamente baixos, mas representaria um risco enorme para os EUA: Obama retirou todas as tropas americanas do Iraque no fim de 2011, depois que um acordo semelhante sobre segurança fracassou naquele país, e, a partir daí, o Iraque foi progressivamente mergulhando no caos.

"Se o governo afegão assinar o acordo de segurança que nós negociamos, um pequeno contingente americano poderá permanecer no Afeganistão, enquanto os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) farão duas missões limitadas: o treinamento e a assistência às forças afegãs, além de operações de contraterrorismo na repressão aos remanescentes da Al-Qaeda", disse Obama, sem confirmar outros possíveis resultados.

Na questão da Síria, o presidente disse que os EUA apoiarão "a oposição que rejeita os objetivos das redes terroristas", mas não quis dizer se seu governo está disposto a fornecer armas e equipamentos aos moderados da aliança rebelde, escassamente coesa, que combate Assad.

Por outro lado, a referência de Obama às "redes terroristas" na própria oposição síria provavelmente será considerada em todo o Oriente Médio um sinal de que Washington agora concorda efetivamente, pelo menos em parte, que Assad, conforme o ditador afirma, está combatendo os violentos islamistas - e não os rebeldes favoráveis à democracia.

Analogamente, Obama disse que "a diplomacia americana, que se respalda na ameaça do uso da força", convenceu Assad a desistir de suas armas químicas depois de usá-las contra seu próprio povo no ano passado, mas não falou o que Washington faria se Assad deixasse de cumprir a promessa de entregá-las para serem destruídas a bordo de um navio americano em pleno mar.

Obama falou pouco do Iraque, onde a violência recrudesceu até os níveis anteriores ao envio dos reforços e as afiliadas da Al-Qaeda conquistaram partes significativas do país, entre elas, a famosa cidade de Faluja. O Congresso acabou de autorizar a venda de helicópteros de ataque Apache solicitados pelo governo iraquiano, mas Obama não fez referência ao caos que está se estabelecendo no Iraque ou a conversações sobre as medidas que os EUA poderão tomar para ajudar a estabilizar o país. Na realidade, ele mencionou o Iraque juntamente com outros países em que operam conhecidas redes terroristas - principalmente Somália, Mali e Iêmen - e prometeu apenas que continuaria "colaborando com os parceiros" para combatê-las.

Snowden, o delator que revelou detalhadamente os programas de espionagem americanos nos EUA e no exterior, não foi mencionado no discurso de Obama. O presidente prometeu ainda colaborar com o Congresso para "reformar" programas de vigilância, mas disse que o faria não por temer que a NSA possa ter violado o direito à privacidade, mas porque "o trabalho vital" da inteligência "depende da confiança da população" dentro e fora dos EUA e de que a "privacidade das pessoas comuns não será violada". O problema, ele indicou, não está na possibilidade de as ligações telefônicas e os e-mails de cidadãos americanos terem sido monitorados pela NSA; mas na necessidade de Washington trabalhar melhor tanto nos EUA quanto no exterior para convencer as pessoas de que a agência não é a personificação do Grande Irmão.

A respeito do Irã, o presidente afirmou que os EUA continuam "conscientes do apoio iraniano a organizações terroristas como o Hezbollah". Mas ele disse que os EUA devem dar uma oportunidade às atuais conversações sobre o fim do programa nuclear do Irã. Ele alertou que vetará a atual legislação que tem o apoio de grupos de parlamentares de ambos os partidos tanto na Câmara como no Senado que prevê novas sanções contra a república islâmica e aprovará imediatamente novas penalidades, caso as conversações se encerrem sem um acordo nuclear permanente.

"Pela segurança da nossa nação, devemos dar uma oportunidade à diplomacia", afirmou Obama. "Se os líderes do Irã não aproveitarem essa oportunidade, serei o primeiro a pedir novas sanções e estarei pronto para exercer todas as opções para garantir que o Irã não tenha condições de construir uma arma nuclear."

O presidente falou ainda que se o Irã chegar a um acordo nas atuais conversações, os EUA terão "resolvido um dos maiores problemas de segurança do nosso tempo sem os riscos de uma guerra". Entretanto, além de acenar com a ameaça de sanções em geral, ele não disse se está preparado a usar a força para impedir Teerã de obter a bomba.

Finalmente, quanto ao controvertido uso de aviões não tripulados pelos EUA, Obama insistiu que "impôs limites prudentes" ao emprego dessas aeronaves. Mas não falou que uma tentativa de tirar o controle dos drones da CIA e passá-lo para o Pentágono em nome da transparência está num impasse desde novembro e as perspectivas dessa medida são, na melhor das hipóteses, incertas.

Obama muitas vezes se define um presidente de tempos de guerra e seu discurso de terça-feira quis demonstrar que ele continua disposto a usar a força contra os inimigos dos EUA se não lhe restarem outras alternativas. O único problema é que ele não quis explicar quais seriam essas alternativas. / TRADUÇÃO DE

ANNA CAPOVILLA

É JORNALISTA

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