Obama fala e grau de desafio se expõe

Congressista republicano solta grito de 'mentiroso' após presidente afirmar que nova saúde não beneficiaria ilegais

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

10 de setembro de 2009 | 00h00

"Chegou a hora de agir" para aprovar a reforma do sistema de saúde, declarou ontem o presidente Barack Obama, diante de uma plateia de 500 deputados e senadores e todos os integrantes de seu gabinete. Em um discurso para as duas Casas do Congresso, Obama tentou reverter a maré de baixa popularidade que atingiu seu governo com um recado duro para os republicanos e garantias ao povo americano sobre a reforma do sistema de saúde. "Acabou o tempo de disputas, não há mais tempo para jogos", disse Obama. "Não sou o primeiro presidente a apoiar essa causa, mas estou decidido a ser o último."

O presidente foi aplaudido demoradamente em diversas ocasiões, mas chegou a ser vaiado ao afirmar que o plano não previa cobertura para imigrantes ilegais. "Mentiroso", gritou um congressista republicano.

Obama tentou imprimir um tom otimista sobre a possibilidade de o Congresso chegar a um acordo, dizendo que há consenso sobre "80%" dos itens da reforma. Republicanos e democratas concordam sobre a criação de um mercado de seguros, para que todos possam comprar planos de saúde por preços mais acessíveis e , em certos casos, com subsídios. Os dois partidos também querem proibir que as seguradoras, por meio de uma artimanha jurídica, possam rescindir os contratos alegando que o paciente não revelou doenças preexistentes. E também proíbem as seguradoras de se negar a oferecer cobertura para pessoas que sofrem de doenças crônicas.

Mas Obama não abandonou o chamado plano estatal - a ideia de criar um plano do governo para competir com os privados e "mantê-los honestos", como diz o presidente. Os republicanos acham que isso vai destruir os planos privados e manifestaram seu desacordo enquanto Obama falou do assunto. Mas o presidente deixou abertas outras opções para aumentar a competição, como as cooperativas, acenando para um espaço de manobra. "O plano estatal é apenas uma maneira para acabar com abusos das seguradoras e garantir cobertura", disse Obama. "Devemos nos manter abertos a outras ideias para atingir nosso objetivo." Ele fez outro aceno aos republicanos ao dizer que se compromete com a reforma da lei de erro médico.

Mas Obama disse estar ficando impaciente com as "táticas de terror" usadas pelos republicanos no debate da reforma de saúde. Obama quer estender a cobertura para os cerca de 46 milhões de americanos que não têm seguro de saúde.

As maiores resistências à reforma vêm das pessoas que têm plano de saúde e temem perder benefícios com a mudança, e dos que acreditam que a reforma fará o déficit americano crescer ainda mais. Obama tentou falar a esses dois públicos. "Vou repetir mais uma vez - nada em nosso plano exige que você mude a cobertura que já tem." Quando ao custo - US$ 900 bilhões, "menos do que gastamos em duas guerras e no corte de impostos para os ricos" -, Obama disse que não assinará uma lei que aumente o déficit federal. Os republicanos mostraram-se céticos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.