Saul Loeb/AFP
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Obama fala em liberdade; China, em soberania

Líder americano afirma que valores defendidos pelos EUA seriam benéficos até mesmo para a China

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2011 | 00h00

A lista de convidados para o jantar de gala oferecido pela Casa Branca ao presidente chinês, Hu Jintao, retrata o espírito da visita de Estado que reuniu os líderes das duas maiores potências do planeta. Entre pesos pesados da diplomacia americana - como os ex-secretários de Estado Henry Kissinger e Madeleine Albright - circulavam pelos corredores executivos de símbolos incontestáveis do capitalismo dos EUA, como a Coca-Cola e a Disney.

Se, do lado político, havia a expectativa de alguma hostilidade em razão da cobrança por mais respeito aos direitos humanos na China, do outro, o dos negócios, predominaria a esperança de fechamento de contratos com a economia que mais cresce no mundo.

As divergências se mostraram primeiro, logo na entrevista conjunta concedida por Hu e Barack Obama. "A História mostra que as sociedades são mais harmônicas, as nações são mais bem-sucedidas, e o mundo é mais justo quando os direitos e as responsabilidades de todos os países e todos os povos são cumpridos, incluindo os direitos de cada ser humano. Os EUA veem os direitos humanos como um valor universal, até mesmo para a China", disse Obama, ao defender também o diálogo entre Pequim e o dalai-lama, líder religioso do Tibete.

"A China fez um enorme progresso na área de direitos humanos. Reconhecemos e respeitamos a universalidade dos direitos humanos. Ainda há muito o que fazer na China em matéria de direitos humanos. Mas devemos ter em conta as diferenças e o princípio da não intervenção", rebateu Hu, ao pedir aos EUA a preservação do "respeito mútuo".

O desrespeito aos direitos humanos por Pequim foi uma das razões pelas quais o novo presidente da Câmara dos Deputados, o republicano John Boehner, rejeitou o convite para o jantar em homenagem a Hu. Enquanto Hu expunha sua versão ao governo americano e à imprensa, grupos protestavam na frente da Casa Branca em favor da independência do Turcomenistão Oriental e do Tibete, da libertação de presos políticos, entre os quais o Prêmio Nobel da Paz de 2010, Liu Xiaobo - sobre quem Obama também falou com o líder chinês, segundo uma fonte dos EUA.

O governo americano impõe mais limitações a pedidos de visita de Estado do que o brasileiro. Obama aceitou apenas duas outras solicitações - da Índia e do México. Nos EUA, o protocolo da atual visita incluiu o jantar de gala. Na sua visita oficial durante o governo do ex-presidente George W. Bush, Hu foi recebido apenas para um almoço.

Os temas do topo da agenda americana com a China - Taiwan e Coreia do Norte - receberam respostas pouco construtivas de Hu. Ambos são vistos por analistas dos EUA como potenciais causadores de um conflito armado na Ásia, no qual Washington estaria envolvido por causa de seus compromissos de defesa com Taiwan, com a Coreia do Sul e com o Japão.

No caso de Taiwan, os EUA insistiram na retirada dos mísseis chineses direcionados para a ilha.

Ao ouvir a insistência da China em promover uma solução negociada sobre as ameaças de Pyongyang, Obama diplomaticamente reforçou sua visão de que novas sanções sobre a Coreia do Norte seriam a melhor saída. "A comunidade internacional deve manter sua posição coesa diante da violação pela Coreia do Norte de seus compromissos com a eliminação de programa nuclear."

Direitos humanos em debate

BARACK OBAMA

PRESIDENTE DOS EUA

"A história mostra que as sociedades são mais harmônicas, as nações mais prósperas e o mundo mais justo quando os direitos e as responsabilidades de todos os povos são cumpridos. Os EUA veem os direitos humanos como um valor universal, até para a China"

HU JINTAO

PRESIDENTE DA CHINA

"A China fez um enorme progresso na área dos direitos humanos. Ainda há muito o que fazer na China em matéria de direitos humanos. Mas devemos ter em conta as diferenças culturais e o princípio da não intervenção"

CONTENCIOSO

Armas para Taiwan: Os EUA anunciaram em janeiro a venda de US$ 6,4 bilhões em armas para Taiwan. Pequim reagiu com a suspensão da cooperação militar entre os dois países  Dalai-lama: Apesar de protestos de Pequim, Obama recebeu o dalai-lama em fevereiro

Google: Site anunciou em março o fechamento de sua versão em chinês por causa da suposta intensificação da censura

Coreia do Norte: Em maio, a Coreia do Sul acusou a Coreia do Norte de ter afundado dois meses antes o navio de guerra Cheonan, matando 46 marinheiros. A China evitou condenar seu aliado e frustrou os EUA, que gostariam de uma ação mais incisiva de Pequim para controlar Pyongyang

Yuan: O grau de desvalorização do yuan em relação ao dólar é um ponto de permanente atrito nos laços bilaterais

Expansão militar: A China investe na modernização de suas Forças Armadas e desenvolve o que seria o primeiro sistema de mísseis capaz de atingir navios e porta-aviões. Com isso, teria a capacidade de atingir a frota americana estacionada na região

Nobel da Paz: A China reagiu com fúria à entrega do Prêmio Nobel da Paz ao dissidente Liu Xiaobo, em novembro, evidenciando as diferenças ideológicas que a separam dos EUA

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