Silvia Constanti/Valor/Agência O Globo
Silvia Constanti/Valor/Agência O Globo

No Brasil, Obama faz mea culpa sobre atual nível de intolerância nos EUA

Ex-presidente americano revelou arrependimento e deu algumas alfinetadas em Trump, sem mencioná-lo

José Fucs, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2017 | 22h00
Atualizado 06 Outubro 2017 | 06h20

Quem esperava que o ex-presidente dos EUA Barack Obama fizesse um pronunciamento protocolar nesta quinta-feira, 5, no Fórum Cidadão Global, no Teatro Santander, na zona sul de São Paulo, teve uma surpresa. Em sua palestra, que durou cerca de meia hora, complementada depois por uma sessão de perguntas elaboradas pelos organizadores do evento, Obama abordou alguns dos temas mais polêmicos do momento – a ascensão de líderes populistas e nacionalistas, o crescimento da oposição à globalização, as perspectivas de novos conflitos militares internacionais, a desigualdade, o aquecimento global e a disseminação de ódio na internet e na sociedade de forma geral. 

Após presidência, Obama incentiva jovens líderes a serem perseverantes

Ao responder uma pergunta a respeito do que ele se arrepende em seus dois mandatos na Casa Branca, Obama afirmou que é não ter sido capaz de superar as diferenças que estavam emergindo na política americana. Ele disse que, ao assumir o cargo, em 2009, em meio à crise financeira que se espalhou pelo mundo, as pessoas estavam com medo. Obama afirmou que adotou medidas para evitar o que poderia ter sido uma grande depressão e não uma profunda recessão, mas admitiu que os resultados foram lentos, frustrando as pessoas e levando-as a buscar dois lados diferentes na política.

“É preciso reconhecer que o capitalismo e o livre mercado são os maiores geradores de riqueza da humanidade, mas também é verdade que a globalização enfraqueceu a posição dos trabalhadores para garantir seus salários”, disse. “Em um mundo em que apenas 1% controla tanta riqueza quanto todo o resto, nós não teremos estabilidade política.”

Embora realce o papel desempenhado pela tecnologia ao mudar a forma de consumir informação, Obama afirmou que nem sempre isso ocorreu para o bem. “A internet tem potencial de difundir conhecimento e oportunidade, mas também dá poder àqueles que espalham ódio e morte”, disse. “Nós estamos mais conectados do que nunca, mas isso levou ao nosso recolhimento a tribos e bolhas, nas quais só escutamos pessoas que pensam como nós.” Segundo ele, a saída para o quadro atual de polarização está na busca por informações de qualidade, por meio do jornalismo independente, e em ouvir as pessoas das quais discordamos. “Nós precisamos abraçar os valores do pluralismo, da tolerância, da diversidade e do império da lei, para andar para a frente.”

Em sua palestra, Obama não citou Donald Trump, mas deu algumas indiretas em seu sucessor, recebidas com risos de cumplicidade pelo público, que não disfarçava seu encantamento pelo líder democrata. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando ele afirmou que o Twitter, rede social preferida pelo atual presidente americano,“pode servir como condutor de más notícias”. 

Em relação ao aquecimento global, Obama disse que estaria até disposto a discutir a melhor forma de lidar com o problema. Mas, em outra alfinetada em Trump, que não concorda com o diagnóstico feito pela maioria dos cientistas dedicados ao estudo do fenômeno, declarou não entender a contestação pura e simples de sua existência.

Obama, que deve seguir nesta sexta-feira, 6, para a Argentina, para participar de um congresso sobre “economia verde”, defendeu a abertura dos países, entre eles os EUA, aos imigrantes, em especial àqueles que vêm de regiões devastadas por guerras. Ele pregou, contudo, cautela nos casos de “ondas de imigração descontroladas”, que podem levar a conflitos políticos. 

Obama ainda afirmou que, em alguns casos, a força militar americana é necessária, para manter a paz, mas que os Estados Unidos não devem resolver os problemas "só com tanques e aviões”. “A Coreia do Norte representa um perigo real. Mas temos de entender que a nossa segurança não pode depender só da força militar, mas também da diplomacia.”

 

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