Obama faz novo apelo por acordo

Presidente pede fim dos ''jogos imprudentes'' do Congresso

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2011 | 00h00

Sem diluir o impasse em torno do plano para elevar o teto da dívida americana e para ajustar as contas públicas até 2022, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, advertiu os líderes do Congresso a "refrearem os jogos políticos imprudentes" e a se afastarem da tentação de apresentar uma solução temporária para a questão.

A mensagem foi transmitida por Obama durante uma tensa reunião de cerca de 50 minutos, ontem, agendada depois do fracasso de sua tentativa de chegar a um consenso com o presidente da Câmara dos Deputados, o republicano John Boehner, na sexta-feira.

O encontro não trouxe solução para o impasse. A rigor, Obama chamou a atenção do Congresso para sua responsabilidade de não permitir a suspensão de pagamentos pelo governo federal. Conforme argumentou, um acordo válido apenas em curto prazo para elevar o teto da dívida não seria suficiente para evitar o rebaixamento da qualificação de risco do passivo americano, atualmente no limite de US$ 14,3 trilhões. Com esses comentários, Obama lavou suas mãos e entregou ao Congresso a tarefa de buscar um acordo aceitável.

"Como a situação atual deixa claro, seria uma irresponsabilidade colocar em poucos meses nosso país e nossa economia de novo em risco por causa de outra batalha para aumentar o teto da dívida", disse Obama aos parlamentares, segundo comunicado de seu porta-voz, Jay Carney. "O Congresso deve refrear os jogos políticos imprudentes com a nossa economia. Deve ser responsável e fazer o seu trabalho, que é o de evitar a suspensão dos pagamentos e cortar o déficit."

Ao deixar o encontro na Casa Branca, o líder da minoria republicano no Senado, Mitch McConnell, garantiu que o Congresso está comprometido com a tarefa. As conversas no Senado continuaram na tarde de ontem. Porém, não havia clareza sobre qual das propostas já maturadas nas últimas semanas poderia servir como base para um projeto definitivo.

Negociação. Em conferência por telefone com seus colegas republicanos, Boehner comprometeu-se a fazer uma declaração na tarde de hoje sobre um novo pacote, com cortes de US$ 3 trilhões a US$ 5 trilhões nos gastos públicos federais. Provavelmente, a proposta não trará aumento de impostos para não desagradar a base republicana. Boehner mostrou-se disposto a fazer o pronunciamento para evitar o nervosismo na abertura dos mercados da Ásia devido a ausência de acordo em Washington. Os líderes do Senado, ontem, trabalhavam com base na proposta de McConnell e também com o projeto da chamada Gangue dos Seis, grupo de senadores republicanos e democratas.

Ontem, quando o impasse já estava consolidado, Obama fez um novo apelo para o partido republicano aceitar o aumento da arrecadação de impostos como uma das iniciativas de ajuste fiscal. Argumentou ser essa uma medida essencial para dar equilíbrio ao pacote e evitar cortes de gastos com benefícios para a população carente.

"Podemos conseguir juntos um compromisso para o bem do país. Podemos fortalecer a nossa economia e deixar às nossas crianças um futuro melhor. Ou podemos nos insultar, exigir mais e dar ultimato de lado a lado, escapar para os nossos casulos partidários e não conseguir nada", afirmou.

O acordo negociado com Boehner previa um corte de mais de US$ 4 trilhões nos gastos públicos - enorme concessão da Casa Branca e da base democrata. Também envolvia o aumento de US$ 800 milhões na arrecadação de impostos, sobretudo com a eliminação de benefícios para os contribuintes mais ricos e as grandes empresas.

ACORDO EM DEBATE

O risco do calote dos EUA

1.Quais contas têm de ser pagas em agosto?

O Departamento do Tesouro tem de efetuar 80 milhões de pagamentos, equivalentes a US$ 306 bilhões, segundo o Pew Center on the States. Nesse valor estão, entre outros, US$ 29 bilhões em juros da dívida federal; US$ 14 bilhões em salários dos servidores públicos; US$ 3,9 bilhões em restituição de impostos; US$ 49 bilhões em benefícios da Previdência Social e US$ 50 bilhões em assistência médica.

2.O que acontece se não houver o acordo?

O Tesouro não poderá efetuar 44% dos pagamentos, ou seja, US$ 134,6 bilhões.

3.O que acontece com a dívida?

A classificação de risco da dívida americana cairá e o mercado passará a exigir remuneração maior para comprar títulos do Tesouro. A taxa de juros básica aumentará. O custo de empréstimo para o consumo e os investimentos se tornará mais caro.

4.O que deve prever o acordo?

Há consenso entre a Casa Branca e o Congresso sobre a necessidade de aumentar o teto da dívida pública para evitar a suspensão dos pagamentos. Também há certa sintonia sobre a redução da dívida entre US$ 3 trilhões e US$ 4 trilhões nos próximos dez anos.

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