Obama, guerreiro-chefe

Apesar de sua disposição de usar a força e seu histórico militar, o público americano continua considerando o presidente um pensador e negociador, não um lutador

É UM DOS DIRETORES DA NEW AMERICA FOUNDATION, PETER L., BERGEN, THE NEW YORK TIMES, É UM DOS DIRETORES DA NEW AMERICA FOUNDATION, PETER L., BERGEN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2012 | 03h07

O presidente que recebeu o Prêmio Nobel da Paz menos de nove meses após assumir o cargo revelou-se um dos líderes americanos mais agressivos do ponto de vista militar das últimas décadas. Os liberais contribuíram para eleger Barack Obama em parte porque ele se opunha à guerra no Iraque e provavelmente não devem comemorar os inúmeros feitos militares do presidente, embora consideráveis.

Obama dizimou os líderes da Al-Qaeda. Derrubou o ditador líbio. Intensificou os ataques com aviões não tripulados (drones) no Paquistão. Sustentou guerras secretas efetivas no Iêmen e na Somália e aprovou o envio do triplo do número de soldados americanos no Afeganistão em relação ao planejado.

Tornou-se o primeiro presidente a autorizar o assassinato de um cidadão dos Estados Unidos, Anwar al-Awliki, nascido no Novo México, que teve um importante papel operacional na Al-Qaeda e foi morto em um ataque de drone no Iêmen. E, evidentemente, Obama ordenou e supervisionou a invasão da força de elite Seal da Marinha dos EUA que matou Osama bin Laden.

Ironicamente, o presidente aproveitou o discurso que pronunciou ao receber o Nobel para expor sua filosofia da guerra. Na época, deixou muito claro que sua oposição à guerra no Iraque não significava que ele abraçasse o pacifismo - absolutamente. "Encaro o mundo como ele é e não posso permanecer passivo diante das ameaças ao povo americano", disse o presidente à comissão do Nobel - e ao mundo. "Pois não se enganem: o mal existe neste mundo. Um movimento não violento não poderia deter os exércitos de Hitler. As negociações não convencerão os líderes da Al-Qaeda a depor as armas. Dizer que a força é às vezes necessária não é uma afirmação hipócrita - é o reconhecimento da história, da imperfeição do ser humano e dos limites da razão."

Se o pessoal de esquerda o ouviu, aparentemente não se impressionou. A esquerda, que condenara com estardalhaço George W. Bush por usar as simulações de afogamento e as violações do devido processo em Guantánamo, manteve-se relativamente calada quando o governo Obama, agindo como juiz e algoz, ordenou mais de 250 ataques de drones no Paquistão desde 2009, durante os quais morreram ao menos 1.400 pessoas.

A disposição de Obama de usar a força - e seu histórico militar - rendeu-lhe um escasso apoio da direita. Apesar das provas em contrário, a maioria dos conservadores vê o presidente como uma espécie de pacifista. Tanto por parte da direita quanto da esquerda, sempre tem havido uma constante e drástica falta de conexão cognitiva entre o histórico de Obama e a percepção que o público tem de sua liderança: apesar da disposição amplamente demonstrada de usar a força, nenhum dos dois lados o vê como o presidente guerreiro que ele é.

Piratas. Obama teve uma vivência direta da eficácia e da precisão militar logo no início da presidência. Três meses depois da posse, piratas somalis tomaram como refém Richard Phillips, o comandante americano do cargueiro Maersk Alabama, no Oceano Índico. Autorizados a usar força letal caso a vida do comandante Phillips estivesse em risco, elementos da força Seal desceram de paraquedas em um navio próximo, e três paraquedistas, atirando na escuridão de uma distância de 30 metros, mataram os piratas sem ferir o comandante Phillips.

Logo depois que assumiu a presidência, Obama reformulou o combate ao terrorismo. Os liberais queriam fazer das operações contra o terrorismo uma campanha de policiamento global - e não uma guerra. O presidente não escolheu este caminho e declarou "guerra à Al-Qaeda e aos seus aliados". A mudança de retórica teve consequências dramáticas, não retóricas. Comparando a utilização de ataques com drones de Obama com a do seu predecessor, durante o governo Bush havia 1 ataque americano com drones a cada 43 dias. Durante os 2 primeiros anos do governo Obama, foi realizado 1 ataque com drones a cada 4 dias. E dois anos depois da posse, o presidente laureado com o Nobel da Paz estava envolvido em conflitos em seis países muçulmanos: Iraque, Afeganistão, Paquistão, Somália, Iêmen e Líbia. O homem que foi para Washington como um presidente "contrário à guerra" mostrou pender mais para Ted Roosevelt do que para Jimmy Carter.

Obama precisou apenas de algumas semanas para agir na Líbia na primavera de 2011, quando o coronel Muamar Kadafi ameaçou massacrar grande parte da população líbia. Obama foi à ONU e à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e deu início à campanha militar - totalmente criticada tanto pela esquerda quanto pela direita - que derrubou o ditador líbio.

Discurso. Nada disso surpreenderia quem quer que tivesse prestado atenção ao que Obama disse a respeito do uso da força durante sua campanha presidencial. Em um discurso em agosto de 2007 sobre segurança nacional, ele pôs a nação e o mundo em alerta: "Se recebermos informações corretas a respeito de alvos terroristas muito importantes e o presidente Musharraf não agir, nós agiremos", afirmou, referindo-se a Pervez Musharraf, então presidente do Paquistão. E acrescentou: "Não hesitarei em usar a força militar para remover os terroristas que representam uma ameaça direta aos EUA".

Foi a afirmação mais clara que ele poderia fazer. Mas republicanos e democratas bombardearam Obama com críticas de igual intensidade por sugerir que autorizaria uma ação militar unilateral no Paquistão para matar Bin Laden ou outros líderes da Al-Qaeda.

Uma vez na presidência, Obama autorizou um enorme aumento do número de agentes da CIA no Paquistão e uma campanha de intensos ataques com drones naquele país.

Nada mostra com que intensidade Obama estava disposto a usar o poder das armas como sua decisão de enviar a unidade Seal para Abbottabad, para retirar Bin Laden de lá. Se essa arriscada operação fracassasse, certamente teria abalado profundamente a presidência de Obama - e seu legado.

Os assessores de Obama temiam que uma invasão desastrada perturbasse - ou mesmo destruísse - as relações entre os EUA e o Paquistão, tornando mais difícil continuar a guerra no Afeganistão, já que grande parte dos suprimentos americanos tinha de ser enviada pelo espaço aéreo ou por rotas terrestres paquistanesas.

Riscos. Alguns dos principais assessores de Obama temiam que a informação que sugeria que Bin Laden estava no complexo de Abbottabad fosse muito frágil para justificar os riscos envolvidos. O vice-diretor da CIA, Michael J. Morell, dissera ao presidente que, no que se referia aos dados disponíveis, "as provas circunstanciais de que o Iraque tivesse armas de destruição em massa eram mais fortes do que as provas de que Bin Laden estivesse morando no complexo de Abbottabad".

No final da reunião do Conselho de Segurança Nacional, na qual foram analisadas as opções relativas à possível presença de Bin Laden no complexo, Obama deu a cada um dos assessores a possibilidade de falar e a maioria considerou a ação arriscada. Quando perguntou a opinião do vice-presidente Joe Biden, este respondeu: "Sr. Presidente, minha sugestão é: não vá".

Para o presidente, o possível sucesso da ação evidentemente superava todos os riscos envolvidos. "Embora eu achasse que havia 50% de probabilidades que de Bin Laden estivesse lá, pensei que deveríamos tentar, não para derrotar completamente a Al-Qaeda, mas de afetá-la profundamente, então valeriam a pena tanto os riscos políticos quanto os riscos para os nossos homens", disse Obama.

Na manhã seguinte, 29 de abril, Obama reuniu seus principais assessores de segurança nacional em um semicírculo ao seu redor e disse simplesmente: "Vamos então". Três dias mais tarde Bin Laden estava morto.

A missão Bin Laden voltará certamente a ser citada nas próximas eleições. A campanha já produziu um documentário de 17 minutos que mostra a incursão. Juntamente com a série de realizações militares de Obama, ficará difícil para Mitt Romney convencer os eleitores de que Obama é o típico democrata, com pouca expressão em matéria de segurança nacional.

Obama pretende estar em Chicago na cúpula da Otan no final do mês, quando a campanha começar a esquentar. Ele chegará após os EUA e o Afeganistão concordarem em manter uma parceira estratégica de longo prazo, que envolverá a permanência de soldados americanos no Afeganistão para dar treinamento depois que as operações de combate cessarem em 2014.

Nada disso sugere que Obama goste de "resolver tudo no gatilho" ou que, ao analisar o uso da força, ele confie mais na própria coragem do que nos conselhos recebidos. Em oportunidades em que os riscos parecem grandes demais (uma ação militar contra o Irã) ou os benefícios pouco claros (como alguma forma de intervenção militar na Síria), Obama reiteradamente impediu o fogo das armas americanas.

O público americano continua considerando o presidente um pensador, não uma pessoa que opta pela ação; um negociador, e não um lutador. O presidente optou pela equipe dos Seal e não pelo código vermelho, mas muitos continuam a vê-lo como o negociador-chefe e não como o guerreiro-chefe que ele é de fato. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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