Obama ignora a grave falência venezuelana

ANÁLISE: Jackson Diehl / THE WASHINGTON POST

O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2015 | 02h01

Uma característica persistente da presidência de Barack Obama é sua determinação em implementar o programa com o qual chegou ao cargo, sem adaptá-lo às condições vigentes. Ele estabeleceu prazos para "pôr fim às guerras" no Afeganistão e Iraque, independentemente do progresso no campo militar. Insistiu nas conversações de paz entre israelenses e palestinos, apesar de os líderes dos dois lados demonstrarem má vontade. Iniciou seu segundo mandato buscando um novo tratado sobre armas nucleares com Vladimir Putin, mesmo com abundantes provas de que ele preparava um confronto com o Ocidente.

Depois de seis anos de governo, Obama lançou sua primeira iniciativa importante na América Latina, a distensão com Cuba, iniciativa que muitos liberais defendiam há décadas. Mais uma vez, contudo, o presidente ignorou o presente. O regime de Raúl Castro estava desesperado por uma abertura econômica para os EUA - o que significa que as concessões oferecidas gratuitamente por Obama poderiam ser usadas para obter em troca concessões políticas pelo regime. Uma delas seria o fim das prisões e espancamentos de dissidentes.

Mais importante, Obama ignora uma crise que tem inquietado Raúl Castro e deveria ser o centro do empenho dos EUA na América Latina: o lento, mas potencialmente catastrófico colapso da Venezuela. O país é um importante fornecedor de petróleo para os EUA, tem população três vezes maior do que a cubana e está a caminho de se tornar um Estado falido. A Venezuela tem sido virtualmente uma colônia cubana nos últimos anos. Depois de abrigar o caudilho Hugo Chávez durante sua lenta morte por um câncer em março de 2013, Havana colaborou para colocar na presidência Nicolás Maduro, um ex-motorista de ônibus de poucos talentos que segue subsidiando Cuba com 100.000 barris de petróleo por dia.

Maduro enfrenta o agravamento da situação social, política e econômica. A produção econômica caiu 5% no primeiro semestre de 2014, a inflação superou os 60% e há uma escassez de um terço dos produtos de consumo - e isso antes da queda de 50% dos preços do petróleo venezuelano, que representa 95% das divisas em um país que importa a maior parte dos alimentos e remédios.

Sob muitos aspectos, a Venezuela já é um Estado falido. De acordo com o Observatório da Violência Venezuelano, 25.000 pessoas foram assassinadas em 2014, a segunda maior taxa no mundo, depois de Honduras. O governo dos EUA estima que metade da cocaína produzida na América do Sul atravessa a Venezuela - 300 toneladas por ano - com a ajuda de líderes do alto escalão do Exército e da polícia. Há confrontos entre forças da segurança e os coletivos civis armados organizados pelo regime. E Wall Street já começa a prever um calote da dívida venezuelana.

Como as receitas do petróleo despencaram, Maduro recusa-se acabar com distorções econômicas extremas. A taxa de câmbio do dólar no mercado negro é 350% maior que a mais alta das três taxas oficiais e a gasolina custa centavos o litro. Maduro tem proferido incessantes discursos denunciando a "guerra econômica" que, segundo ele, os EUA vêm travando contra a Venezuela. Prendeu importantes líderes da oposição como Leopoldo López, político da esquerda moderada que se formou nos EUA.

Curiosamente, a única estratégia política perceptível do governo Obama sobre essa implosão é exatamente aquela que ele rejeitou no caso de Cuba: sanções. No dia seguinte ao anúncio de uma normalização de relações com Havana, Obama aprovou lei proibindo vistos e congelando ativos de autoridades venezuelanas do alto escalão acusadas de violações de direitos humanos, incluindo a morte de dezenas de manifestantes que protestaram no ano passado.

A oposição venezuelana apoia essas sanções, mas seus líderes afirmam que o país necessita desesperadamente de uma intervenção diplomática externa. Os grandes governos da região, como a Casa Branca, concentram-se na reabilitação política de Cuba, ignorando a situação em Caracas. E isso é particularmente equivocado porque há um papel claro a ser assumido por mediadores estrangeiros na intermediação de um acordo entre governo e oposição moderada que permitiria uma trégua política, libertação de presos e medidas de emergência para estabilizar a economia. "Permanecer mudo é ser cúmplice num desastre que não terá impacto apenas sobre a Venezuela, mas em todo o hemisfério", escreveu López em carta publicada no Wall Street Journal. É lamentável o fato de seu país não estar inserido na agenda preconcebida de Obama. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

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