Obama inspira esperança irreal

Expectativas da Ásia ao Oriente Médio beiram o absurdo e refletem boa vontade do presidente eleito

Simon Jenkins*, THE GUARDIAN, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

O massacre em Mumbai (ex-Bombaim) despertou o fantasma de uma guerra entre Índia e Paquistão justo quando as relações entre os dois países pareciam estar melhorando. Era isso que os terroristas desejavam. Essa é a lição que veio do Ocidente após os ataques de 11 de setembro de 2001. Se beligerância e retaliação contundente são os princípios norteadores do contraterrorismo, a Índia está hoje autorizada a atacar o Paquistão.Até Washington ir à guerra no Afeganistão em outubro de 2001, virtualmente toda nação da região simpatizava com os Estados Unidos após o 11/9. A visão generalizada era a de que a Al-Qaeda de Osama bin Laden fora longe demais. Até Irã e Egito enviaram condolências, e Yasser Arafat doou sangue para os moradores de Nova York. Costumamos esquecer disso.As guerras no Afeganistão e no Iraque abortaram qualquer oportunidade de usar o desastre como um prelúdio da reconciliação. Mas uma oportunidade similar ainda pode ser detectada. Indianos sensatos sabem que paquistaneses sensatos estão estarrecidos com o horror que se está apoderando de seu país. A opinião pública nos dois Estados pode ver que o caminho mais seguro para combater o extremismo é normalizar relações e cooperar contra uma insurgência que se está banqueteando com a ocupação do Afeganistão pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Morreram mais soldados paquistaneses do que de qualquer outro país na ocupação.Exausto é a melhor palavra para descrever o chamado arco de instabilidade do Mediterrâneo a Islamabad após oito anos de intervenção ocidental.O Líbano está exaurido por sua disputa com a Síria e esta, por sua disputa com Israel. O Hamas, na Faixa de Gaza, está exaurido por sua disputa com a Fatah. Israel, agora que se aproxima de uma eleição, está exaurido pela ameaça do Hezbollah. Por isso, seus políticos poderiam, apenas poderiam, costurar, enfim, um acordo com a Síria - por intermédio dos sauditas - sobre as Colinas do Golan.Mais para o leste, a guerra no Iraque está arrefecendo de pura exaustão. Dois milhões de iraquianos acampados nos arredores de Damasco não poderão voltar para casa até que os americanos tenham partido e algum novo acordo seja acertado entre sunitas e xiitas.No Afeganistão, a exaustão se reflete no pragmatismo desesperado de seu governante, Hamid Karzai. Ele controla sua cada vez mais reduzida esfera de poder, mas não consegue livrar seu regime da corrupção e dos cartéis da droga que exasperam seus senhores ocidentais. Sete anos depois da deposição do Taleban, os líderes ocidentais agora defendem conversar com os membros do grupo islâmico.Ao longo da Fronteira Noroeste, a Otan está caindo precisamente na armadilha estratégica que apanhou os russos nos anos 90 - e os britânicos no século 19. Mas mesmo ali, a tosca coalizão de Taleban, Al-Qaeda e outros insurgentes está sob pressão do Exército paquistanês, enquanto os subsídios aos extremistas que fluíam do Golfo estariam diminuindo. É possível, apenas possível, que até a Al-Qaeda esteja exausta.A teoria da onda longa sugere que o mundo muçulmano pode estar pronto para uma reação contra o extremismo que trouxe tanta devastação sobre sua cabeça nas duas últimas décadas. Ele não só dilacerou pequenos países, como Líbano, Iraque e Afeganistão, como convulsionou grandes, como Turquia, Egito, Irã e Paquistão. Ele deu um poder sem precedente a seitas, milícias e gangues, mas não conseguiu criar a paz.Quem viajar hoje a essas partes do mundo se verá cercado pela Obamania. Das mesas de jantar em Lahore às salas de conferência na Universidade Americana de Beirute, o presidente eleito dos EUA transmite uma carga impressionante de expectativa. Para um povo para o qual George W. Bush se tornou sinônimo de antiamericanismo insano, a raça, o nome, a moderação e a falta de empáfia de Barack Obama se elevaram como um messias de outra terra.As esperanças são irreais. Obama apoiará o plano saudita para o Oriente Médio e forçará a ida de Israel à mesa de negociação. Ele terminará com a ocupação do Iraque. Acalmará as relações com o Irã e reconhecerá que a agressão americana só ajudou o extremismo. Ele enviará seu general, David Petraeus, para negociar com o Taleban.Interromperá o bombardeio de aldeias paquistanesas e o recrutamento de milhares para a Al-Qaeda. Obama ajudará as escolas seculares do Paquistão, não seu Exército.Essas expectativas beiram ao absurdo. O novo presidente, em suas nomeações e declarações públicas, promete não ser mais coerente em sua estratégia regional do que outros democratas. Quem achar que um "reforço militar" pode vencer a guerra no Afeganistão, ou estiver pronto para invadir o Paquistão para guardar suas armas nucleares tem, na melhor hipótese, uma íngreme curva de aprendizado pela frente.Mas o estoque de boa vontade que Obama acumula provavelmente é sem precedente entre líderes americanos nos tempos modernos. Se ele visitar Cairo, ou Beirute, ou mesmo Teerã, será recebido como um guardião da expectativa. Região fustigada por políticas americanas tenebrosas durante uma década, ela só quer um sorriso, um gesto de encorajamento e uma promessa de fazer melhor de um país que tem lhe causado tanto dano. *Simon Jenkins é colunista do jornal britânico ?The Guardian?

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