Obama já luta em muitas frentes

Antes mesmo de assumir, presidente eleito tem de lidar com intrigas políticas, a crise econômica e uma nova guerra

Fernando Dantas, O Estadao de S.Paulo

10 de janeiro de 2009 | 00h00

A lua-de-mel de do futuro presidente Barack Obama com a população americana ainda não acabou, mas, a nove dias da posse, certamente o clima tornou-se mais tenso.Antes mesmo de assumir, um dos presidentes eleitos mais carismáticos das últimas décadas já se confronta com problemas em quase todas as frentes: dificuldades e revezes para compor seu gabinete, confusões no Senado (vital para aprovar seu megapacote de estímulo econômico), e, acima de tudo, a violenta invasão de Gaza por Israel, que põe em xeque sua capacidade de se diferenciar em política externa de George W. Bush, e em relação à qual o seu silêncio até agora desconcerta sua base eleitoral mais à esquerda."Assim que assumir, ele terá de mostrar uma estratégia sobre o conflito entre israelenses e palestinos; é um assunto que Obama não pode ignorar, sob pena de parecer fraco, num momento em que há grande expectativa sobre a sua presidência", diz Aaron David Miller, acadêmico especializado em políticas públicas do Centro Woodrow Wilson em Washington, autor do livro The Much Too Promised Land ("A terra Demasiadamente Prometida"), sobre o conflito, e ex-negociador americano para o Oriente Médio.Miller, na verdade, aposta que Obama terá capacidade de sair-se bem dessa armadilha colocada para ele logo nos primeiros dias de governo. Para o acadêmico, o presidente "fará diplomacia a sério, o que significa negociações que reflitam o interesse dos dois lados". Além disso, ele vê em Obama uma pessoa "reflexiva, que não enxerga o mundo em preto e branco, mas nos tons cinzentos que explicam a maior parte dos conflitos". Segundo Miller, a única dúvida é se Obama será "duro suficiente com ambos os lados".O quase silêncio de Obama sobre o conflito até agora - o máximo que ele fez foi lamentar vítimas civis dos dois lados - já desperta ceticismo na esquerda. "Não há absolutamente nenhuma razão para continuar com a fantasia de que a posição de Obama sobre Israel será fundamentalmente diferente daquela de Bush ou de Bill Clinton", se lê no blog de esquerda Kabobfest, em referência aos rumores sobre a nomeação pela futura secretária de Estado, Hillary Clinton, do diplomata Dennis Ross como enviado especial do novo presidente para o Oriente Médio. Ross participou dos governos de George Bush pai e de Clinton.Entre os árabes, mesmo moderados, a posição morna de Obama também cai mal. "Nós esperávamos que ele fosse aberto e reativo", queixou-se Riad Malki, o ministro de Relações Exteriores da Autoridade Palestina.Mas não é apenas na área externa que o presidente eleito já enfrenta dores de cabeça. Na montagem do gabinete, além da desistência do governador do Novo México, Bill Richardson, de assumir o cargo de secretário de Comércio, por causa de suposto beneficiamento de uma empresa contratada por seu Estado, houve a nomeação de Leon Panetta para chefiar a Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês). A escolha foi recebida com muitas críticas pelos profissionais do setor e até por altos membros do próprio Partido Democrata do presidente.Panetta, ex-parlamentar e ex-chefe de Gabinete da Casa Branca no governo Clinton, é visto como muito eficiente em gestão, mas não tem nenhuma experiência na área de Inteligência. Isso obviamente incomodou o pessoal da área, mas a reação mais desagradável para Obama foi a da senadora democrata Dianne Feinstein, que preside a Comissão de Inteligência do Senado. Para ela, "a agência fica melhor servida com um profissional de inteligência no presente momento". Na verdade, Dianne ficou indignada por não ter sido consultada, como presidente de uma comissão sobre o tema, e Obama até mesmo se desculpou por isso.O presidente eleito, aliás, deve tomar cuidado com o Senado, que atrapalhou ou enterrou muitas das iniciativas recentes do presidente Bush. O clima na Câmara Alta já não anda bem, com a novela da substituição da vaga deixada pelo próprio Obama. Acuado por um indiciamento por corrupção, e sob risco de perder o cargo, o governador de Illinois, Rod Blogojevich, saiu-se com um lance de raposa política, ao nomear para a vaga de senador o negro Roland Burris. Este, num lance teatral, foi a Washington tentar tomar posse, mas foi impedido, num movimento que contou com o apoio dos senadores democratas (a maré agora ficou mais favorável a Burris).E há, finalmente, o desafio maior, que o próprio presidente eleito faz tudo para destacar: tirar a economia americana do abismo, com um pacote de estímulo fiscal de quase US$ 800 bilhões. Também aí, nada parece ser fácil. A possibilidade de Obama tomar posse no dia 20 com o pacote já aprovado, ou quase, num esforço bipartidário, parece cada vez mais remota. Os mais otimistas creem que o plano poderá ser assinado em meados de fevereiro.

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