Obama, JFK e Teerã

Há 50 anos, o presidente John F. Kennedy proferiu um discurso em uma colação de grau na American University. Alguns meses depois de a Crise dos Mísseis cubanos quase levar o mundo a uma guerra nuclear, Kennedy preferiu falar de paz. E isso num momento em que enfrentava uma União Soviética nuclearmente armada, com uma ideologia abominável e aparentemente disposta a dominar o mundo.

É PROFESSOR DA JOHN F. KENNEDY SCHOOL OF GOVERNMENT, DA , UNIVERSIDADE HARVARD, MATTHEW, BUNN, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, É PROFESSOR DA JOHN F. KENNEDY SCHOOL OF GOVERNMENT, DA , UNIVERSIDADE HARVARD, MATTHEW, BUNN, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

12 Junho 2013 | 02h07

Kennedy contestou aqueles que achavam que a paz era "impossível" ou "irreal", qualificando essa crença de "derrotista e perigosa". Falou de uma paz "viável", com base "em ações concretas e acordos eficazes que correspondessem ao interesse de todos". Ele reconheceu que os EUA em parte eram responsáveis pela Guerra Fria, exortando os americanos a "não cair na mesma armadilha que os soviéticos, não ter apenas uma perspectiva distorcida e desesperada do outro lado". "Devemos confiar que mesmo nações mais hostis podem aceitar e cumprir as obrigações de um tratado que atendam a seus próprios interesses", disse.

Hoje, quando os EUA enfrentam o Irã, cujo governo também é dominado por uma ideologia alheia aos valores americanos e aparentemente está empenhado em exportar essa ideologia e ameaçar Israel, as palavras de Kennedy têm uma profunda ressonância.

Conseguirão os EUA chegar a uma paz viável com esse país que possa impedir, de maneira comprovável, que o país avance com seu programa nuclear a ponto de fabricar armas atômicas? Ou estão condenados a uma escolha terrível, entre atacar militarmente e consentir que o Irã construa seu arsenal nuclear?

Kennedy foi das palavras à ação, anunciando que os EUA suspenderiam os testes nucleares atmosféricos desde que os outros também o fizessem. Foram enviados negociadores a Moscou para debater uma proibição dos testes.

Dez dias depois, os negociadores fecharam acordo para uma linha direta de comunicação entre Washington e Moscou. A União Soviética cessou seus testes nucleares, como Kennedy havia decidido fazer. O líder russo Nikita Kruchev anunciou que seu país deixaria de produzir bombardeiros estratégicos. Mais tarde, ambos reduziram sua produção de material nuclear para bombas e seus gastos com a defesa e fizeram uma retirada recíproca de milhares de soldados da Europa central.

A estratégia de Kennedy teve base numa ideia simples. Para acabar com a desconfiança os EUA teriam de dar o primeiro passo, não apenas com palavras, mas com ações concretas, inegáveis.

Está na hora de Obama adotar a mesma estratégia com relação ao Irã. Os EUA poderiam abolir algumas sanções substanciais e acenar com outras medidas conciliatórias. O Irã poderia, assim, exportar uma parte do seu urânio enriquecido a 20% ou combiná-lo para chegar a 5%, propondo-se a fazer ainda mais se os EUA adotarem outras iniciativas.

Há cinco décadas, Kennedy exortou os americanos a não serem "cegos às divergências" com a União Soviética, mas também "dirigirem sua atenção para os interesses comuns e os meios pelos quais essas divergências podem ser resolvidas". Precisamos agir do mesmo modo hoje diante do desafio iraniano. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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