Mike Groll/AP
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Obama lança orientação de política externa que restringe militarização

Presidente abre caminho para o Exército dos EUA treinar rebeldes sírios moderados e anuncia fundo de US$ 5 bilhões para governos no Oriente Médio e norte da África

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S. Paulo

28 Maio 2014 | 12h02

(Atualizada às 23h) WASHINGTON - O presidente dos EUA, Barack Obama, abriu caminho para o envolvimento do Exército americano no treinamento de rebeldes sírios "moderados" e anunciou a criação de um fundo de US$ 5 bilhões para fortalecer a capacidade de governos e "parceiros" no Oriente Médio e norte da África de combater o terrorismo. As medidas anunciadas por Obama na quarta-feira, 28, em Washington, são as bases de sua nova política externa.

Em sua visão, a cooperação é a melhor maneira de enfrentar a natureza difusa que organizações terroristas passaram a ter depois das guerras do Afeganistão e do Iraque, com o surgimento de células descentralizadas da Al-Qaeda e outros grupos. Intervenções militares unilaterais, que marcaram o período posterior aos atentados do 11 de Setembro, não são a melhor maneira de combater essa nova face do terrorismo, disse Obama.

Em seu lugar, ele propôs uma rede de alianças que se estende do sul da Ásia ao norte da África, para a qual serão destinados os US$ 5 bilhões do fundo. "Esses recursos nos darão flexibilidade para cumprir diferentes missões, incluindo o treinamento de forças de segurança no Iêmen que iniciaram uma ofensiva contra a Al-Qaeda; o apoio a uma força multinacional para manter a paz na Somália; o trabalho com aliados europeus para treinar uma força de segurança funcional e uma patrulha de fronteiras na Líbia; e a facilitação das operações francesas no Mali", exemplificou.

Parte da ajuda será destinada aos vizinhos da Síria, que enfrentam uma crise humana com a chegada de 9 milhões de refugiados da guerra civil e a multiplicação de grupos terroristas que combatem o regime de Bashar Assad.

Falando a formandos da Academia Militar de West Point, Obama não escondeu sua aversão ao uso unilateral da força. "Desde a 2.ª Guerra, alguns de nossos erros mais custosos vieram não de nossa contenção, mas de nossa disposição de entrar em aventuras militares sem pensar nas consequências."

Obama não descartou a hipótese de intervenções militares, mesmo que unilaterais, mas afirmou que elas só devem ser usadas quando houver ameaças à população americana, quando seu modo de vida estiver em risco e quando a segurança de seus aliados estiver em perigo.

No mundo do terrorismo difuso, o melhor caminho é fortalecer quem luta contra ele em seu próprio território. É nessa moldura que Obama pretende discutir com o Congresso caminhos para o Exército americano envolver-se no treinamento da oposição moderada da Síria.

Segundo Obama, essa nova manifestação do terrorismo reduz a possibilidade de um atentado maciço aos EUA semelhante ao do 11 de Setembro, mas amplia a vulnerabilidade de seus funcionários e representantes no exterior, ao mesmo tempo em que torna mais frequentes ataques como o realizado contra um shopping center em Nairóbi, no qual 67 pessoas morreram em setembro.

O objetivo de Obama era definir as diretrizes para o que vê como o exercício da liderança global dos EUA. Nele, o presidente fez a defesa da ordem mundial sob o comando americano depois da 2.ª Guerra e disse que o país deve se submeter às regras internacionais se pretende que elas sejam obedecidas pelos demais. "O que nos faz excepcionais não é nossa habilidade de ignorar normas internacionais ou o império da lei; é nossa disposição reafirmá-los com nossas ações."

A obediência a esses princípios exige o fechamento da prisão de Guantánamo, disse Obama, voltando à promessa de campanha de 2008 que não conseguiu cumprir em razão da oposição no Congresso. "Os valores americanos e nossa tradição legal não permitem a detenção indefinida de pessoas além de nossas fronteiras."

O desrespeito às regras internacionais mina a pretensão americana de liderar o mundo, reconheceu Obama, dizendo que o mesmo problema está presente nas ações da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês). "É por isso que estou impondo novas restrições a como o país coleta e usa inteligência - porque nós vamos ter menos parceiros e ser menos eficientes se a percepção de que vigiamos cidadãos comuns for dominante."

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