Obama liga para Lula e elogia País

Em resposta ao telefonema de congratulações por sua vitória, presidente eleito conversa com brasileiro por 15 minutos[br]Entenda principais desafios de Obama

Denise Chrispim Marin e Tânia Monteiro, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

12 de novembro de 2008 | 00h00

Sete dias depois de eleito presidente dos EUA, Barack Obama disse ontem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que pretende aprofundar a cooperação bilateral na área de biocombustíveis. Mas manteve especial cuidado para não dar sinais abertura do mercado americano ao etanol brasileiro, uma das pendências da relação entre os dois países.Em conversa de 15 minutos por telefone, Obama fez elogios à política econômica do governo brasileiro, bem como aos programas sociais e ao papel de liderança alcançado pelo País nos fóruns internacionais. Mas obteve uma resposta mais pragmática de Lula. O brasileiro aproveitou a conversa para tocar em temas mais pesados da agenda externa de Brasília, que serão decididos somente a partir de uma posição favorável de Washington. Defendeu, por exemplo, a conclusão da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) e a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, dois temas sobre os quais Obama não lançou nenhuma declaração positiva durante sua campanha eleitoral. A iniciativa de travar a conversa partiu de Obama, que telefonou a Lula para agradecer os cumprimentos do governo do Brasil a sua vitória nas eleições, conforme informou a assessoria de imprensa do Itamaraty. Lula estava naquele momento, 19h30 no horário de Brasília, no Palazzo Pamphilj, a sede da Embaixada do Brasil em Roma, e teve sua conversa com Obama acompanhada pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Convidado por Lula a visitar o Brasil, Obama diplomaticamente afirmou que o fará na primeira oportunidade e não chegou a fazer convite equivalente a Lula."A conversa foi positiva, regida pela sobriedade que caracteriza Obama. Ele demonstrou muito conhecimento sobre o Brasil e as suas políticas, embora nunca tenha visitado o País", afirmou Amorim, por meio de sua assessoria.CÚPULA DE WASHINGTONDurante o diálogo, Obama destacou que considera importante o papel do Brasil no G-20, o fórum sobre questões econômico-financeiras que reúne as economias mais ricas e os principais países em desenvolvimento. Mas afirmou a Lula que não irá a Washington para a reunião (mais informações nesta página).Como forma de ressaltar que teve alguma influência na concepção desse encontro, porém, Obama relatou a Lula que havia sugerido a Bush a organização da reunião do G-20, por ser um fórum mais amplo que o G-8 (o grupo dos sete países mais industrializados e a Rússia) e por contar com países relevantes, como o Brasil. Em um sinal de que já conta com um elo informal no governo brasileiro, Obama comentou a Lula que foi aluno de Mangabeira Unger, ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência, na Universidade Harvard. O presidente Lula aproveitou parte da conversa para destacar "o bom estado" das relações Brasil-EUA e para preconizar o seu aprofundamento. Não chegou a reiterar as pressões brasileiras em favor da abertura do mercado americano ao etanol por não considerar o momento adequado. Mas defendeu que os dois países reforcem o diálogo sobre questões relativas à América Latina, que tende a ser tão abandonada pelo governo Obama como foi na administração Bush; à Rodada Doha, que tende a ser desfigurada pela linha mais protecionista do novo governo americano; e à reforma das Nações Unidas, que tende a receber um tratamento cauteloso da Casa Branca a partir de 2009. A CONVERSA Convite - Lula convidou Obama para visitar o Brasil. O americano diplomaticamente aceitou o convite, mas evitou falar em datas Elogios - Obama elogiou programas sociais e econômicos do Brasil e o papel de liderança que o País tem assumido na região Contencioso - Presidente eleito evitou manifestar-se sobre temas como tarifas ao etanol, Rodada Doha e reforma do Conselho de Segurança da ONU PRIMEIRAS TAREFASSugestões de especialistas consultados por ?The Washington Post? para o governo ObamaGuantánamo"Fechar Guantánamo será extremamente complicado. Como resultado de nossas ações lá, alguns terroristas não podem mais ser julgados em tribunais nacionais. Como resultado de nossas ações lá, homens que não eram terroristas há seis anos podem ser terroristas hoje. E como resultado de nossas ações lá, alguns presos estão completamente desconectados com o terrorismo e, mesmo assim, não são bem-vindos em nenhuma outra parte do mundo. Fechar o campo é reconhecer que os vastos problemas associados a mover, julgar e repatriar esses presos ainda são preferíveis a perpetuar o mito de que prendemos ?os piores dos piores?. Muitos dos presos são apenas os mais azarados dos azarados. Fechar o campo é um longo caminho para restaurar a reputação dos EUA como uma nação de leis e sinalizará um desejo atrasado de admitir erros passados."Dahlia Lithwick, correspondente de assuntos legais da revista "Slate"Afeganistão"O presidente Barack Obama tem de lidar com o Afeganistão. Mas, para fazer isso, ele precisará se antecipar para ajudar o Paquistão e a Índia a solucionar suas diferenças sobre a Caxemira. Os problemas do Afeganistão e do Paquistão são inseparáveis. Mas a habilidade do Paquistão de lidar com o Taleban e com outros extremistas em sua fronteira é prejudicada por sua preocupação com a Índia. O governo indiano já resistiu à mediação dos EUA na Caxemira anteriormente, mas a crescente relação estratégica entre os dois países pode agora fazer com que o envolvimento americano seja possível. Um modelo intrigante para a Caxemira é o acordo de Belfast, de 1998. O tratado estabeleceu uma rede de instituições que permitiu à Grã-Bretanha e à República da Irlanda compartilharem a soberania sobre a Irlanda do Norte e, dessa maneira, pôr fim a décadas de violência."Meghan O?Sullivan, ex-subconselheira nacional para o Iraque e o Afeganistão

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