Obama muda equipe de diplomacia e dá mais espaço a 'intervencionistas'

O presidente dos EUA, Barack Obama, trocou ontem duas peças-chave de sua equipe de política externa, dando espaço a mulheres de perfil "intervencionista". A principal mudança foi a nomeação de Susan Rice para substituir Tom Donilon na chefia do Conselho de Segurança Nacional, movimento interpretado como um desafio aos republicanos, que vetaram o nome dela para o Departamento de Estado.

DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2013 | 02h04

Para o lugar de Susan como embaixadora na ONU, Obama indicou Samantha Power, jornalista e acadêmica de Harvard, especialista em intervenções humanitárias - além de biógrafa do brasileiro Sérgio Vieira de Mello, enviado especial da ONU ao Iraque, assassinado em 2003. Ambas ocuparão os novos postos em julho e são conhecidas por defender uma posição mais assertiva de Washington diante de graves violações dos direitos humanos. As duas são próximas de Obama (trabalharam na campanha de 2008).

Susan foi acusada pela oposição de ocultar informações sobre o ataque do ano passado ao consulado americano em Benghazi, na Líbia, que matou o embaixador Christopher Stevens e outros três funcionários. Ela era cotada para assumir o cargo de secretária de Estado no segundo mandato de Obama, mas senadores republicanos prometeram bloquear sua confirmação. Para se tornar assessora do Conselho de Segurança Nacional, Susan não precisa se submeter a uma sabatina no Senado.

Ela é lembrada no Itamaraty especialmente por sua furiosa observação, feita ao embaixador francês na ONU, depois de Brasil e Turquia terem assinado com o Irã um acordo na área nuclear, em 2010: "É esse o país que vocês querem ver como membro permanente no Conselho de Segurança?" A visita de Estado da presidente Dilma Rousseff a Washington, no dia 23 de outubro, será tratada pelo Itamaraty com Susan.

Samantha concedeu entrevistas e publicou artigos com opiniões que revoltaram conservadores e radicais do Partido Republicano. Ela defendeu, por exemplo, que os EUA têm dois pesos e duas medidas na promoção da democracia - "reclama-se da falta de democracia na Palestina, mas não no Paquistão", escreveu ela na New Republic, em 2003. Segundo ela, o país deve pedir desculpas por complôs da CIA para derrubar governos ao longo da história.

Em 2010, com a crise na Líbia, Susan, na ONU, e Samantha, como funcionária da Casa Branca, estiveram entre as primeiras a defender uma intervenção militar americana. Agora, diante de 80 mil mortos em dois anos de violência na Síria, a expectativa é que as duas pressionem por uma posição mais ativa dos EUA, embora o presidente Obama tenha deixado claro que, por enquanto, está descartada a possibilidade de envolvimento militar direto no país árabe. O secretário de Estado, John Kerry, também parece apostar em uma investida diplomática. Ele tentou organizar, juntamente com a Rússia, uma conferência de paz sobre a Síria que ocorrerá este mês, mas fracassou (mais informações nesta página).

Na dança de cadeiras, Donilon, um dos principais articuladores da diplomacia de Obama, cumpre a promessa de deixar o cargo no início do segundo mandato do presidente. Com um estilo considerado demasiado franco, ele se destacou por seu foco no combate ao terrorismo e na estratégia de contenção da China. No fim desta semana, ele concluirá uma de suas principais missões ao reunir Obama e o presidente da China, Xi Jinping, para discutir uma nova relação entre as potências. / COM NYT

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