'Obama muda o jeito de fazer diplomacia'

No Brasil, emissária dos EUA para comunidades islâmicas defende diálogo com jovens e recusa oposição entre EUA e Islã

Entrevista com

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h07

No Brasil pela segunda vez, a representante especial para comunidades islâmicas do Departamento de Estado, Farah Pandith, orgulha-se de ser parte de uma nova aposta da diplomacia americana: o diálogo direto com a "sociedade civil" - setores como estudantes, organizações não governamentais, empresários e minorias. É essa a "mudança estrutural" pela qual passou a política externa americana sob Barack Obama, diz Farah, nascida há 44 anos na Caxemira. Depois de Brasília e São Paulo, a diplomata seguiria no fim de semana para Foz do Iguaçu, na Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, região que desde o 11 de Setembro recebe atenção especial de Washington em razão da suspeita de atividade terrorista. Questionada sobre o tema, Farah fala firme e garante que sua visita "não tem absolutamente nada a ver com segurança". A seguir, a entrevista exclusiva que concedeu ao Estado.

Qual é o interesse da sra. no Brasil?

Vim pela primeira vez a São Paulo em 2009, pouco após assumir meu atual cargo. Tive uma ótima experiência com comunidades muçulmanas locais e outras vozes da sociedade civil. Havia escutado muito sobre o grande orgulho que brasileiros têm de sua diversidade e, aqui, esses valores me chamaram muito a atenção - os muçulmanos que conheci celebram essa pluralidade brasileira. Falo regularmente sobre o que vi no Brasil.

E qual é o objetivo dessa nova viagem, agora mais extensa?

A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, pediu-me para buscar uma abordagem diplomática no nível das pessoas, com foco sobretudo nos jovens. Meu interesse é escutar experiências e conectar gente que pensa de modo semelhante. Um empreendedor social em São Paulo pode trabalhar com alguém que faz algo parecido em Jacarta, por exemplo. Essas ligações são a chave da nova geração global. Portanto, quero escutar e discutir com os brasileiros temas globais - fiz isso em uma faculdade de São Paulo.

A viagem da sra. a Foz do Iguaçu parece fazer parte de uma nova abordagem dos EUA para a Tríplice Fronteira: se no pós-11 de Setembro o enfoque era na área de inteligência e segurança contra supostos terroristas, agora se tenta buscar uma visão mais sofisticada sobre as comunidades islâmicas locais e outros problemas, como lavagem de dinheiro e corrupção. A sra. concorda?

Em minha última visita, não consegui ir à região da Tríplice Fronteira e estou muito feliz de poder, desta vez, ver a diversidade da comunidade islâmica local. Minha visita não tem absolutamente nada a ver com questões de segurança e vou a Foz do Iguaçu para ouvir as pessoas. O presidente Barack Obama fez uma distinção clara entre grupos terroristas como a Al-Qaeda e o Islã. Queremos um diálogo profundo com esse um quarto da população mundial que é composto pelos muçulmanos.

O fato de o nome do meio do presidente Obama ser "Hussein" voltou a ser uma questão política durante a campanha - o que causa certa estranheza mundo afora. Em que medida os Estados Unidos podem servir ao mundo de modelo no tratamento de comunidades islâmicas nacionais?

Viajei para mais de 75 países nos últimos três anos e meio e não escutei tanto sobre essa questão. Vejo, na verdade, uma resposta cada vez mais entusiasmada à forma como a secretária Hillary Clinton lida com a sociedade civil. Estamos combinando formas tradicionais e novas de diplomacia - o que ela chama de "diplomacia cidadã", criando pontes com jovens e usando novas tecnologias. Eu, por exemplo, uso muito Twitter. Com o presidente Obama, e digo isso como alguém que integra o Departamento de Estado, houve uma mudança estrutural na forma como se faz diplomacia.

Quais foram os efeitos do filme que ridicularizava o profeta Maomé sobre a posição americana no mundo islâmico? Como lutar contra a percepção de que Islã e Estados Unidos são antagônicos?

O presidente, em seu discurso no Cairo, em 2009, deixou claro que se relacionaria com o mundo islâmico com base no respeito mútuo - sem uma visão do tipo "nós e eles". Muçulmanos são parte do Ocidente e não há "choque de civilizações", ou qualquer coisa desse tipo. Rejeitamos totalmente essa visão. Desde os ataques do 11 de Setembro, vimos uma sequência de eventos como as charges do profeta na Dinamarca ou assassinato do cineasta Theo Van Gogh (na Holanda). Nós não começamos isso - que, aliás, remonta a 1989, ano da fatwa contra o escritor Salman Rushdie em razão do livro Versos Satânicos.

Infelizmente, esse tipo de coisa não vai parar automaticamente. Mas o que temos de ver é a condenação, por parte das comunidades, quando há desrespeito. Como americanos, acreditamos fortemente no direito das pessoas de se expressar. Mas é preciso reconhecer o poder da condenação - o presidente Obama e a secretária Hillary Clinton sempre defenderam a liberdade de expressão e condenaram duramente esse vídeo. Isso teve um grande poder. Do caso das charges na Dinamarca a esse último vídeo, houve uma mudança enorme na forma como as comunidades reagem e condenam o discurso da intolerância.

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