Obama muda perfil de assessores internacionais

Triunvirato que fará política externa no 2º mandato é mais cético em relação a intervenções militares e partidário de uma ação global menos ostensiva

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2013 | 02h05

A memória do ex-presidente Richard Nixon voltou a Washington na semana passada e não apenas em razão do centenário de nascimento do republicano, falecido em 1994. O presidente Barack Obama, ao definir os três cargos-chave da política externa de seu segundo mandato, mostrou que segue vivo o legado do "realista" que encerrou a aventura militar no Vietnã e estendeu a mão à China de Mao e à URSS.

Como Nixon há 40 anos, todos os integrantes do novo triunvirato que definirá a ação da superpotência americana - John Kerry, no Departamento de Estado; Chuck Hagel, no Pentágono; e John Brennan, na CIA - são céticos em relação a grandes intervenções armadas em nome de valores universais e partidários de uma política mais discreta, de bastidores. Os três entendem que os EUA devem trocar o peso dos coturnos de seus soldados por ações de diplomatas, espiões e forças especiais - a estratégia das "pegadas leves", no jargão dos analistas.

"Ao contrário da Casa Branca no primeiro governo Obama, esse segundo gabinete é dominado por pessoas que não acreditam tanto no uso de tropas para resolver problemas. Isso certamente influenciará a resposta a questões como a Síria ou o Irã", disse ao Estado Robert Jervis, professor de relações internacionais da Universidade Columbia.

Hagel, como senador republicano, inicialmente apoiou a invasão do Iraque, em 2003, mas depois mudou de posição e se rebelou contra George W. Bush. Ao lado do então colega Obama, recusou o aumento de tropas em solo iraquiano, em 2007.

Kerry, presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, foi um dos articuladores da reaproximação dos EUA com a Síria de Bashar Assad, antes da Primavera Árabe, e serviu de emissário de Obama nas espinhosas negociações com o Paquistão. Brennan, funcionário de carreira da CIA, é tido como o mentor da ofensiva global com aviões não tripulados em lugares como Iêmen, Somália e Paquistão. Ele entrou na agência há 25 anos ao ler um anúncio no jornal e passou por postos sensíveis, como chefe da estação na Arábia Saudita - o "mortífero burocrata", como foi apelidado, fala fluentemente árabe.

No entanto, a visão de que os EUA devem "reduzir o perfil" de sua política externa é, antes de tudo, a do próprio presidente, completa Jervis. "Obama relutou em enviar mais 30 mil homens ao Afeganistão, em 2009, e recusou-se a deixar tropas no Iraque após a retirada do fim de 2011", afirmou o professor.

Os três escolhidos terão de passar por uma sabatina no Senado, que tem a prerrogativa de confirmá-los ou não no cargo. O mais polêmico do grupo é Hagel, que deve se tornar o primeiro veterano do Vietnã a comandar o Pentágono (ele ainda tem no corpo estilhaços de uma mina que quase o matou, perto da fronteira com o Camboja).

O ex-senador do Nebraska comprou briga com grupos radicais pró-Israel por ter denunciado, em 2006, a forma como o "lobby judaico intimida as pessoas". Hagel irritou ativistas da causa gay ao questionar, no Senado, a indicação de um embaixador por ser abertamente homossexual. E contrariou conservadores ao se opor a resoluções unilaterais contra o Irã, alertando para os riscos de um confronto.

Seyed Hossein Mousavian, ex-porta-voz dos negociadores nucleares iranianos e hoje professor de Princeton, elogiou a escolha. "A dupla Hagel-Kerry pode ser o time certo para um acordo com o Irã e o fim de 30 anos de inimizade", disse ao Estado.

Latinos. Ninguém no triunvirato de Obama tem um interesse especial na América Latina, muito menos no Brasil. Nos círculos diplomáticos latino-americanos de Washington, reclama-se que Kerry - integrante do Comitê de Relações Exteriores do Senado desde 1985 - não costuma receber embaixadores da região.

Em 2010, ele se encontrou secretamente com o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, para negociar a libertação do americano Alan Gross. Kerry provocou polêmica com republicanos ao dizer que a guerrilha colombiana "tem reivindicações legítimas". "Mas ele está mais preocupado com o Paquistão", diz uma fonte diplomática latino-americana.

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