AP/ Susan Walsh
AP/ Susan Walsh

Obama muda tom e fala diretamente contra venda de armas

Presidente americano vincula violência em Dallas a facilidade do acesso a armas de fogo e volta a pedir controle de fuzis

Aaron Blake, Washington Post

08 Julho 2016 | 19h22

WASHINGTON - As respostas do presidente Barack Obama aos assassinatos em massa têm tratado cada vez mais especificamente do tema das armas ao longo dos anos. No início, ele insistia, como de praxe, nas expressões de pesar, na necessidade de orar, nas promessas de justiça. Mas, aos poucos, suas palavras adotaram novo tom. No ano passado, o presidente instou as pessoas a analisar de um ponto de vista político as tragédias por ocasião da aprovação de novas leis sobre posse de armas, com a preocupação de impedir futuros massacres.

Ontem, Obama não hesitou en atacar diretamente a questão das armas. Enquanto ainda estávamos sendo informados da morte de cinco policiais por um atirador em Dallas, Obama, que se encontrava na Europa, afirmou que a tragédia está relacionada ao porte de armas e isso exige uma ação específica. “Quando as pessoas estão armadas com armas potentes, sabemos que, infelizmente, ataques como este serão mais mortíferos e mais trágicos”, destacou. “Daqui em diante, teremos de avaliar também esta realidade. No meio tempo, nossos pensamentos deverão ir para as vítimas e suas famílias”.

O comentário de Obama foi mais um adendo ao tema principal do seu discurso. O que não impediu que ele deixasse uma mensagem importante. E voltou a tratar da questão do mesmo modo como abordou o mais terrível massacre da história americana, no mês passado, em Orlando.

“O atirador estava armado com uma pistola e com um potente fuzil de assalto”, disse Obama em seus primeiros comentários sobre o ocorrido. “Portanto, este massacre mais uma vez nos lembra como é fácil para qualquer cidadão pôr as mãos numa arma permitindo-lhe atirar em pessoas numa escola, num lugar de adoração, num cinema, ou numa boate. Agora, precisamos decidir se este é o país em que queremos viver. Por outro lado, não fazer nada também será uma decisão.”

A fala de Obama foi um pouco mais indireta após o massacre de dezembro em San Bernardino, Califórnia. Na ocasião, ele pediu aos legisladores que adotassem alguma medida para impedir tais tragédias, mas não falou explicitamente sobre armas. A verdadeira mudança na retórica de Obama ocorrera dois meses antes, após outro massacre em Oregon. Naquele caso, ele não hesitou em pedir que a tragédia fosse analisada de um ponto de vista político.

Obama entende que estas tragédias se devem em parte à cultura americana em matéria de armas e crê que a resposta apropriada é fazer alguma coisa a respeito. Ao mesmo tempo, ao assumir uma posição política horas após o assassinato de americanos, qualquer político estará se expondo (a maioria prefere manter-se numa zona de segurança povoada por orações) e será acusado de politização, inflamando ainda mais os ânimos. As pessoas que não acreditam que novas leis sobre porte de armas sejam a resposta a uma tragédia desta magnitude - cerca da metade da população, segundo pesquisas - acharão que Obama usa a tragédia para adotar alguma medida com a qual discordam.

Foi somente meses após a tragédia de Newtown, em Connecticut, que, em 2012, o Congresso votou um importante projeto de lei bipartidário sobre a necessidade de verificação dos antecedentes de quem adquire armas. O projeto não passou.

É este o contexto no qual Obama escolhe suas palavras em resposta a tragédias como a de Dallas. Nos seus sete anos na presidência, passou claramente a se preocupar menos com a possibilidade de ser acusado de emprestar um caráter político a estes temas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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