Obama não é ingênuo, é otimista

Depois de tudo que já superaram, os EUA saberão lidar com a ameaça de uma potência regional mediana como o Irã

FAREED ZAKARIA, THE WASHINGTON POST

10 de agosto de 2015 | 03h00

Para muitos críticos do acordo nuclear firmado entre potências mundiais e o Irã, o problema é o entusiasmo do presidente americano, Barack Obama. “Um homem muito ingênuo que não sabe como o mundo funciona”, afirmou Rick Perry. “Perigosamente ingênuo”, observou Lindsey Graham. 

Na verdade, Obama não é ingênuo, mas o entusiasmo é importante. Obama é otimista - com relação ao mundo, ao lugar dos EUA nele e mesmo às ameaças que o país enfrenta no Oriente Médio. A história mostra que otimistas costumam estar certos. Hoje, estamos mergulhados no pessimismo. As pessoas veem o mundo como um lugar sombrio e perigoso, onde as ameaças são cada vez maiores e os inimigos, cada vez mais fortes.

 

Em 2014, John McCain afirmou que o mundo estava “numa desordem muito maior do que em qualquer outro momento em toda a minha vida” (o que incluiu a ascensão do fascismo, do nazismo, a 2.ª Guerra e a ameaça nuclear). Já ouvimos isso antes - e com frequência. 

Num ensaio publicado em 1989, o professor de Harvard Samuel Huntington observou que os EUA estavam vivendo sua quinta onda de pessimismo desde os anos 1950. 

Em primeiro lugar, explicou, o Sputnik abalou os EUA e, no início da década de 60, o país estava convencido de que a União Soviética estava a caminho de ultrapassá-lo nos campos econômico, militar e tecnológico. No fim dos anos 60 e início da década de 70, quando o Vietnã corroeu a confiança da nação, o governo Nixon exortou os americanos a se acostumar com um mundo multipolar em que o lugar de Washington havia diminuído. 

À época dos choques do petróleo na década de 70, os Estados produtores foram considerados os novos detentores do poder. No fim dos anos 70, com a União Soviética modernizando seu arsenal nuclear e avançando no Afeganistão e na América Central, inúmeros comentaristas previram que Moscou estava vencendo a Guerra Fria. E quando Huntington escreveu seu ensaio, a noção predominante era de que um Japão invencível se tornaria a primeira potência econômica do mundo. 

Naturalmente, nenhum desses temores se tornou realidade. Uma visão sombria quase sempre conduz a uma avaliação exagerada do poder e da capacidade estratégica dos adversários. 

A discrepância com a União Soviética em relação ao número de mísseis não existia, os Estados ricos em petróleo mostraram-se disfuncionais, as intervenções da União Soviética no Afeganistão foram o começo do fim da superpotência e o tão alardeado modelo econômico do Japão desmoronou exatamente quando começamos a ficar em pânico com relação a ele. 

Eu atualizaria a lista de Huntington e adicionaria os temores que vêm borbulhando desde o 11 de Setembro - de que o Islã radical é um perigo existencial e estamos indefesos diante dele, de que o Iraque de Saddam Hussein era um perigo intolerável para os EUA e, hoje, de que um Irã “imperialista” dominará o Oriente Médio. 

Em seu discurso na Universidade Americana na semana passada, Obama tentou colocar o Irã em perspectiva. É uma potência regional mediana com algumas ambições e capacidade limitada. Seus inimigos do Golfo o superam em termos de gastos militares na proporção de oito para um. Os EUA, na proporção de 40 para um. 

Teerã está tentando desesperadamente respaldar o regime de Bashar Assad na Síria. Trata-se de uma estratégia cara que não deverá funcionar a longo prazo uma vez que o grupo de Assad, os alauitas, representa menos de 15% do país. Por outro lado, o Irã também mobilizou seus soldados no Iraque para combater a ameaça do Estado Islâmico, que é sobretudo um grupo terrorista antixiita.

Ser forçado a lutar em duas frentes para preservar sua segurança não é sinal de força. Reflita sobre os erros que os EUA cometeram quando agiram por medo, convencidos de que seus inimigos estavam próximos de triunfar. 

Nos anos50, o país ajudou a depor líderes democráticos no Terceiro Mundo, temeroso de que esses países se tornassem socialistas. Mais tarde, entrou em guerra no Vietnã. Apoiou o regime do Apartheid na África do Sul. Invadiu o Iraque. 

Por outro lado, quando observamos o contexto das ameaças e compreendemos que o tempo está do nosso lado, pacientemente organizamos nossos aliados, negociamos acordos com nossos adversários, construímos nossa força interna e, no final, vencemos. Não é tão gratificante quanto a imaginada emoção de uma vitória militar, mas é um caminho muito mais seguro para a estabilidade e o sucesso. 

Os EUA sobreviveram à monarquia, ao fascismo, a revoluções e ao comunismo. O país saberá lidar com a ameaça de uma potência regional mediana como o Irã. Sobreviverá ao Islã radical, ideologia que não tem respostas para a era moderna. Reconhecer tudo isso não é ingenuidade, mas confiança. Uma confiança nos EUA confirmada pela história. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

FAREED ZAKARIA É COLUNISTA

Tudo o que sabemos sobre:
Visão Global

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.