Obama não pode vencer

Em 2002, líder americano considerou estúpida guerra no Iraque: seu ditador não ameaçava a segurança dos EUA e invasão não tinha apoio internacional

É COLUNISTA, ROSA, BROOKS, FOREIGN POLICY , É COLUNISTA, ROSA, BROOKS, FOREIGN POLICY , O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2013 | 02h12

Meu falecido avô, comunista convicto até que os tanques soviéticos entraram em Budapeste em 1956, gostava de citar aforismos marxistas (entusiasmo que sobreviveu por muito tempo à sua admiração pelo Partido Comunista). Entre seus favoritos estava o trecho da introdução do Dezoito Brumário de Luis Bonaparte, de Marx, publicado em 1852: Hegel observa em um dos seus escritos que todos os fatos e personagens históricos mais importantes, ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E se esqueceu de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda vez como farsa.

É uma frase de grande efeito, que tem a dupla virtude de ser perfeitamente fácil de citar e de dar a um tapinha maldoso em Hegel (Georg Wilhelm Friedrich). Mas também oportuno. Evidentemente, a história se repete, e com certeza, às vezes as situações se tornam farsescas. Entretanto, em geral, a segunda vez só traz consigo mais tragédia.

É o que está ocorrendo com o presidente Barack Obama e a Síria.

Já ouvimos isso antes, não é? Um presidente americano afirma ao mundo que é necessária uma ação militar rápida e decisiva para impedir que um déspota assassino do Oriente Médio use armas de destruição em massa. O mundo responde com ceticismo (assim como o público americano). Os relatórios da inteligência dos EUA liberados para consulta passam a circular livremente. Os líderes estrangeiros não se mostram muito convencidos, pedindo paciência e diplomacia enquanto os inspetores da ONU preparam um documento próprio. O presidente americano insiste que usará a força unilateralmente se necessário e desafia o Congresso a discordar. O Congresso cede.

Na primeira vez - na questão do Iraque, para os que não testemunharam aquele momento - as coisas acabaram mal. Lembremos que os dados apresentados pela inteligência eram falsos (se não totalmente falsos, pelo menos mal formulados). Em 2003, o secretário-geral da ONU declarou ilegal a invasão americana do Iraque. E apesar das promessas iniciais do governo de George W. Bush de que o uso da força militar americana seria de alcance e duração limitados, em pouco tempo os EUA se viram envolvidos num conflito ao lado de várias nações que durou oito anos, ao custo de mais de US$ 1 trilhão, e resultou na morte de cerca de 4.500 soldados americanos (sem mencionar um número não revelado de iraquianos).

Também lembrarão de um jovem senador chamado Barack Obama, que se tornou famoso por sua oposição à guerra no Iraque respaldada em claros princípios. Em outubro de 2002, Obama falou a respeito da justificativa de Bush para a guerra no Iraque.

"Não me oponho a todas as guerras. Eu me oponho a uma guerra estúpida. Não tenho ilusões sobre Saddam Hussein. É um homem brutal. Um homem que massacra seu próprio povo para garantir seu poder pessoal. Mas sei também que Saddam não representa uma ameaça direta e imediata aos Estados Unidos ou a seus vizinhos. Sei que uma invasão do Iraque sem uma justificativa clara e sem um forte apoio internacional só alimentará as chamas do Oriente Médio, encoraja os piores impulsos do mundo árabe, e fortalece o braço do recrutamento da Al-Qaeda."

Foi um belo discurso. O tipo de discurso - cheio de paixão, honestidade e de bom senso - que levou Obama à Casa Branca. Dez anos mais tarde, evidentemente, é o presidente Obama que tenta vender uma intervenção militar americana a um mundo que reluta. A ironia é impressionante, e triste.

Não me demorarei nos paralelos, pois as diferenças entre Iraque e Síria, e entre Bush e Obama, são palpáveis. Os massacres mais repugnantes de Saddam ocorreram em grande parte até 2003, enquanto hoje o massacre continua na Síria. Bush abraçou com entusiasmo a guerra no Iraque, enquanto Obama só chegou a sua atual aceitação da ação militar na Síria com relutância. E enquanto a mudança de regime fosse o objetivo declarado da guerra no Iraque, Obama rejeitou explicitamente a mudança de regime como meta na Síria.

Mas não tenho certeza se essas diferenças podem tornar essa situação menos trágica. Em muitos aspectos, ela se torna mesmo mais trágica.

É doloroso ver Obama, outrora notoriamente comovido pelo livro de Samantha Power sobre o genocídio em Ruanda, insistir que 100 mil sírios mortos são uma coisa muito triste, mas não são um problema dos EUA. A maioria dos civis foi morta da maneira tradicional, com projéteis e bombas; entretanto, somente os 1.400 civis mortos por armas químicas merecem a atenção dos americanos (e não a compaixão dos EUA).

Por que? Porque, por alguma razão, as leis internacionais que proíbem as armas químicas exigem sua reafirmação pelo uso da força militar americana, enquanto as leis internacionais que proíbem outros crimes de guerra não exigem esta reafirmação.

É doloroso ver o presidente americano insistir que os EUA não querem uma mudança de regime em uma das poucas situações em que insistir numa mudança de regime seria plenamente justificável. Assad é responsável pela morte de dezenas de milhares de seus cidadãos num conflito brutal, e nós não devemos esperar que ele seja derrubado?

Acima de tudo, é doloroso ver o presidente - o homem que outrora falava de maneira tão eloquente contra as "guerras imprudentes" inspiradas pelo "cinismo" e pela "política" - ir à guerra somente porque se colocou num beco sem saída retórico. Evidentemente, a "credibilidade" é importante - mas ater-se a uma observação precipitada a respeito de linhas vermelhas será mais importante do que evitar uma ação militar mal arquitetada e sem objetivo? Curiosamente, grande parte da mídia parece convencida de que a promessa de Obama de buscar a autorização do Congresso para uma intervenção na Síria foi uma jogada inteligente. Não foi. Parafraseando Obama, foi uma jogada idiota. Porque agora não há resultados possíveis bons para Obama, apenas uma série de resultados dolorosamente irônicos.

Talvez eu esteja errada. Talvez, neste momento, os EUA tenham a possibilidade de acabar com o conflito, restaurar a segurança e permitir que se estabeleça um governo sírio menos predatório. Mas de todo modo, agora isso é em grande parte irrelevante: Obama deixou claro que a única norma que está interessado em tentar adotar em termos militares é uma norma limitada contra o uso de armas químicas, e não a norma mais geral contra o massacre de civis.

Foi o filósofo alemão Hegel - o contraponto de Marx nas linhas iniciais de Dezoito Brumário - que insistiu que a verdadeira tragédia implica algo muito mais complexo e ambíguo do que a derrota do bem pelo mal. A verdadeira tragédia, afirmou Hegel, envolve um conflito entre dois bens, cada qual definido de maneira excessivamente rígida. Marx captou o melhor de Hegel em termos retóricos, mas a maneira como Obama trata da crise da Síria não é nada farsesca. A história se repete, e é sempre uma tragédia. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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