Obama no caminho do sucesso na Síria

Acordo sobre armas químicas melhora posição americana em relação ao conflito e indica clareza na política externa

Fareed Zakaria*, O Estado de S.Paulo / The Washington Post

16 de setembro de 2013 | 02h03

Qualquer que seja este difícil caminho, cuidadosamente planejado ou acidental, o governo Obama conseguiu melhorar sua posição na questão da Síria, o que era impossível imaginar dias atrás. O presidente agiu sabiamente ao aceitar e testar a proposta russa de retirar, e possivelmente destruir, o arsenal de armas químicas da Síria. Na realidade, a proposta permitiu que o público percebesse alguma clareza na política externa americana, às vezes um tanto confusa. Mas para que Obama transforme esta situação num sucesso, terá de manter esta clareza.

Há três justificativas distintas no que diz respeito à intervenção na Síria, e elas às vezes se misturam nos apelos à ação. A primeira é a mudança de regime, que exigiria a ajuda direta aos rebeldes para a derrubada do governo de Bashar Assad. A segunda é de caráter humanitário: acabar com o enorme sofrimento daquele país. A terceira consiste em reforçar e implementar a lei internacional contra o uso de armas químicas.

Obama se comprometeu somente com o terceiro objetivo. Em seu discurso de terça-feira, ele rejeitou o primeiro, explicando que os Estados Unidos "não podem querer resolver a guerra civil de outro país pela força, particularmente depois de dez anos de guerra no Iraque e no Afeganistão". Segundo observou, sua proposta de ação militar previa inclusive uma intervenção numa escala menor do que os ataques na Líbia, portanto, seria improvável que conseguisse alterar consideravelmente o equilíbrio de poder na Síria.

As propostas de Obama dificilmente abrandariam a crise humanitária. E até mesmo as propostas mais agressivas - os ataques aéreos e a ajuda aos rebeldes - possivelmente intensificariam o conflito e aumentariam o número de mortos ou refugiados. Quase todas as mortes ocorridas na Síria foram provocadas por armas convencionais.

Portanto, o objetivo de Obama consiste unicamente em dar mais peso a uma lei internacional. A este respeito, ele já conseguiu algo importante. Mobilizou a atenção mundial, e agora existe uma chance, embora pequena, de que possa pôr em marcha um processo de monitoração e até mesmo de destruição das armas químicas sírias. É quase certo que ele consiga garantir que estas armas não sejam novamente usadas pelo regime de Assad. Isto é mais do que ele poderia realizar com ataques aéreos - que provavelmente não destruiriam estas armas. É um sucesso significativo.

Mas para preservar este sucesso, o governo terá de ser claro, garantindo que não buscará outro objetivo, pelo menos por enquanto. Washington terá de conviver com Assad como parceiro nas negociações e avalista dos acordos. Se as inspeções internacionais começarem, será difícil ameaçar com o uso da força porque os inspetores estarão na Síria - entre dois fogos. Lembremos que os inspetores da ONU tiveram de ser retirados do Iraque antes dos bombardeios de 1998, na Operação Raposa do Deserto; o resultado foi o fim das investigações.

O governo Obama está certo em buscar com empenho a via diplomática - ainda que seja difícil. Embora a Síria e a Rússia tenham optado por este caminho a fim de evitar um ataque, será uma satisfação também ao presidente russo Vladimir Putin saber que as armas de Assad estão trancadas ou foram destruídas. Na realidade, é possível que esta jogada tenha sido uma manobra da Rússia para alcançar seus verdadeiros objetivos na Síria: nem mudança de regime nem armas químicas.

Se o governo Obama acredita que a proibição destas armas realmente está prevista numa lei internacional que corre o risco de ser ignorada, e que a ameaça de um ataque militar é a única maneira de fortalecê-la, terá de angariar algum apoio do Congresso, do Conselho de Segurança da ONU, da OTAN, da União Europeia, da Liga Árabe ou de outros grupos do gênero. Lembremos que o governo Bush, às vésperas do ataque contra o Iraque, obteve a autorização do Congresso; como argumento para agir, ele poderia alegar as 16 resoluções do Conselho de Segurança da ONU que o Iraque teria infringido. Depois da invasão, 38 países decidiram enviar suas tropas. É irônico que o único objetivo de Washington seja a defesa de uma lei internacional, e no entanto enfrente a oposição da maioria dos países e da opinião pública internacional. Na realidade, as negociações servirão para ganhar tempo no caso da Síria, mas também no do governo Obama.

*Fareed Zakaria é colunista.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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