Obama, o resolvedor de problemas

Manter a política externa dos EUA pragmática e centrada do primeiro mandato é melhor que assumir riscos desnecessários

É PESQUISADOR DO WOODROW WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS EM WASHINGTON, AARON DAVID, MILLER, FOREIGN POLICY, É PESQUISADOR DO WOODROW WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS EM WASHINGTON, AARON DAVID, MILLER, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2012 | 02h06

Este mês, o ex-assessor de segurança nacional dos Estados Unidos, Zbigniew Brzezinski - homem de intelecto e visão fora do comum e de uma enorme experiência - escreveu na revista Foreign Policy que o presidente Barack Obama deveria reconquistar a credibilidade perdida em política externa, tomar a iniciativa e deixar de ceder aos lobbies nacionais.

Livre das pressões eleitorais, afirmou Brzezinski, Obama agora não será mais julgado pelo público, mas pela história. Quais são as implicações? O presidente pode se permitir agir de maneira ousada e decisiva na construção do seu legado em política externa.

Será que Brzezinski está certo? Será que o presidente pode agora dedicar-se à tarefa de ser o autor de grandes transformações que ele e seus acólitos sempre quiseram que ele fosse - um Obama desacorrentado, por assim dizer, talvez um dos grandes presidentes em política externa da era moderna?

Seria fantástico. No entanto, devo fazer uma afirmação que talvez choque os leitores: estou apostando contra isto. No papel, tudo parece muito promissor. Um presidente popular no segundo mandato, livre da pressão da reeleição e preocupado com uma herança a deixar dispõe-se a conduzir a Diplomacia - com D maiúsculo.

Preparado para enfrentar os riscos - e não avesso a eles -, as restrições políticas desapareceram, deixando lugar à ação: ele fará o que é certo e o que é de interesse nacional. A Casa Branca de Obama torna-se assim uma versão real do seriado The West Wing: ele atacará o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Bibi Netanyahu, conseguirá importantes compromissos com os mulás iranianos e aprovará grandes iniciativas sobre a mudança climática.

Forte cautela. Entretanto, o mundo raramente funciona dessa maneira. As mesmas escolhas políticas, os mesmos riscos e as leis políticas da gravidade que tornam essas questões tão difíceis de resolver em um primeiro mandato presidencial parecem igualmente difíceis no segundo.

Outras questões se apresentam e os líderes adiam as decisões difíceis. Esgotados e cansados, em seu segundo mandato, os presidentes são propensos aos escândalos, aos tropeços, aos erros. À medida que o mandato vai incomodando, a fragilidade começa a competir com o legado. Chineses, russos, israelenses, árabes e iranianos sabem que o tempo está expirando - mais cedo do que se possa imaginar, começa a se instalar a síndrome do "vamos esperar até que apareça o próximo presidente".

Conhecemos os instintos do presidente: cauteloso, deliberado, com um estilo de liderança, que prefere dominar a delegar decisões. Também conhecemos sua estratégia fundamental: prática, não ideológica, multilateral, sempre que possível, desconfiada de grandes doutrinas e determinada a evitar aventuras no exterior.

Na realidade, o presidente Barack Obama é o desvencilhador em chefe, que tira os Estados Unidos de guerras prolongadas pelo mundo e de lugares difíceis, garantindo, ao mesmo tempo, que o país não se envolva em novos conflitos.

Tampouco ele demonstra o domínio estratégico de um Henry Kissinger, de um James Baker ou exibe uma compreensão da arte de fazer um acordo. Assim como nenhum dos que estão em volta dele.

A verdadeira questão é saber se o presidente - independentemente de ele ser um pensador arguto, intuitivo e sutil - poderá ser um realizador. Será que ele tem a vontade e a capacidade de tratar dos problemas mais espinhosos, como o grande acordo com o Irã ou a guerra com os mulás ou uma grande iniciativa para acabar de uma vez por todas com o conflito israelense-palestino? Ele quer mesmo isso? E como não pode fazer tudo sozinho, o próximo secretário de Estado mostrará a garra, a habilidade de negociar e a determinação de compartilhar de grande parte desse fardo? Não consigo perceber, pelo menos por enquanto.

Crise externa. Para falar francamente, os Estados Unidos têm poucos problemas domésticos que precisem ser resolvidos. A linha que separa o que importa internamente e a capacidade dos Estados Unidos de continuarem sendo uma grande potência no exterior deixou de existir. A força do país no exterior sempre foi uma decorrência de sua capacidade econômica e social.

Agora, os problemas mais graves - dívida, déficit, política anômala, dependência do petróleo, um sistema educacional que está se deteriorando, e uma infraestrutura em decomposição - são outras tantas feridas que sangram, enfraquecendo o vigor e a capacidade de decisão do país.

Os Estados Unidos não estão em condição de se afastar do mundo, nem podem se concentrar na solução dos problemas internos em detrimento da proteção dos seus interesses no exterior. No entanto, o capital político do presidente Obama - depois da reeleição - não é ilimitado.

Grande parte dele será imprescindível, particularmente no primeiro ano, para tratar de questões econômicas e entre outras coisas, como a reforma da imigração. Esse primeiro ano, segundo Brzezinski, é tremendamente importante quando se trata de solucionar alguns dos problemas mais complexos de política externa.

Governar significa escolher. Sou totalmente favorável a que se gaste moeda política para reformar a própria casa quebrada antes de procurar consertar a casa alheia. Os Estados Unidos poderão fazer ambas as coisas? Veremos.

Os requisitos imprescindíveis do sucesso de uma política externa mais audaciosa de Obama não são apenas vontade e capacidade, mas oportunidade. A base do sucesso em política externa não é a ausência de constrições políticas, mas é a presença de certa flexibilidade entre os envolvidos no problema que o presidente está tentando resolver.

Isto é, os principais interessados estarão mesmo dispostos a chegar a um grande acordo ou a forjar uma paz histórica? Até certo ponto, os presidentes podem ajudar a criar um contexto favorável, mas, a não ser que as partes - no mundo de hoje, israelenses, palestinos, iranianos ou russos - estejam também dispostos, as probabilidades de sucesso estarão muito distantes.

Alguns afirmam que, independentemente dos riscos e das probabilidades, tentar e fracassar é melhor do que não tentar. É um sentimento nobre, mas muito mais apropriado à prática do atletismo no colégio do que à política externa da maior potência mundial. O fracasso, particularmente o fracasso reiterado (entre Israel e a Palestina), pode piorar as coisas, particularmente quando o esforço não é sério ou consistente.

Até o momento, a política externa de Obama - com algumas exceções - tem sido excelente. Salvo no caso da morte de Osama bin Laden, ele não obteve sucessos espetaculares, mas tampouco fracassos espetaculares.

Feitos de Obama. Desenredar os Estados Unidos das duas guerras mais longas de sua história, impedir outro ataque contra o território americano e melhorar a imagem dos Estados Unidos no mundo é tudo muito bom. E até afirmo que evitar extrapolações - mesmo às custas de uma política externa não muito criativa - é adequado para o momento que os Estados Unidos vivem.

Se governar dos bastidores significa refletir e ter a certeza de que se têm ideias claras, objetivos razoavelmente alcançáveis e os meios para consegui-los, contem comigo. Portanto, senhor presidente, o senhor deveria realmente conduzir a política externa no seu segundo mandato da seguinte maneira: aceite que este talvez não seja o momento de grandes transformações e compreenda que não há nada de errado em uma série de transações frutíferas.

Teste os mulás iranianos num acordo provisório sobre a questão nuclear como primeiro passo para um possível acordo mais abrangente. Pressione israelenses e palestinos a chegarem a um acordo provisório sobre fronteiras e segurança, se puder.

Trabalhe para uma reformulação razoável das relações com os russos que permita um grau de cooperação e não uma constante competição. E encontre uma maneira de conferir credibilidade ao "pivô da Ásia" ou então encontre outra forma de frear os chineses, mas coopere com eles também. Acima de tudo, aceite vitórias parciais, se for o caso.

Ao mesmo tempo, ignore os conselhos dos Don Quixotes que instam o senhor a gastar tempo e energias - sem falar em sua credibilidade em rápida queda - com problemas que o senhor não pode resolver e em batalhas que o senhor não poderá vencer. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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