Obama ordena ataques cibernéticos em massa contra programa iraniano

Desde seus primeiros meses no cargo, Barack Obama ordenou secretamente ataques cada vez mais sofisticados contra os sistemas de computadores que administram as principais instalações iranianas de enriquecimento nuclear, expandindo significativamente o primeiro uso contínuo de armas cibernéticas por parte dos EUA, de acordo com participantes do programa.

DAVID E. SANGER , THE NEW YORK TIMES , WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2012 | 03h04

Obama decidiu acelerar os ataques - iniciados durante o governo de George W. Bush sob o codinome Operação Jogos Olímpicos - mesmo depois que um elemento do programa chegou acidentalmente ao público em meados de 2010 graças a um erro de programação que permitiu sua fuga da instalação de Natanz, no Irã, espalhando-se pelo mundo. Especialistas em segurança eletrônica que começaram a estudar o worm (tipo de vírus de computador), desenvolvido nos EUA e em Israel, deram-lhe um nome: Stuxnet.

Numa tensa reunião na Sala de Situação da Casa Branca dias após a "fuga" do worm, Obama, o vice-presidente Joe Biden, e o então diretor da CIA, Leon Panetta, avaliaram se a mais ambiciosa tentativa americana de retardar os esforços nucleares do Irã tinha sido comprometida.

"Será que devemos encerrar o programa?", perguntou Obama, de acordo com membros da equipe presidencial de segurança nacional presentes na sala.

Ao saber que ainda não estava claro até que ponto os iranianos teriam detectado a presença do código, e analisando as provas segundo as quais o worm continuava a causar estragos, Obama decidiu que os ataques cibernéticos deveriam prosseguir.

Nas semanas seguintes, a instalação de Natanz tornou-se alvo de uma nova versão do vírus de computador e, pouco depois, outra versão atacou a usina. O último ataque da série, ocorrido poucas semanas após a detecção do Stuxnet em todo o mundo, desativou temporariamente quase 1 mil das 5 mil centrífugas que o Irã estava usando na purificação do urânio.

Iniciativa secreta. Este relato da iniciativa americana e israelense para retardar o programa nuclear iraniano tem como base entrevistas feitas nos últimos 18 meses com funcionários e ex-funcionários dos governos dos EUA, da Europa e de Israel, assim como com uma gama de especialistas independentes.

Nenhuma das fontes quis ser identificada, pois a iniciativa é em grande parte secreta, e partes do programa seguem em atividade até hoje.

Estes funcionários ofereceram diferentes avaliações do quanto o programa de sabotagem estaria de fato retardando o avanço iraniano no desenvolvimento da capacidade de fabricar armas nucleares.

Estimativas internas do governo Obama dizem que o esforço iraniano foi atrasado em entre 18 e 24 meses, mas alguns especialistas, tanto do governo quanto independentes, se mostraram mais céticos, destacando que os níveis de enriquecimento do Irã se recuperaram rapidamente, conferindo ao país uma quantidade de combustível que, por meio de um enriquecimento adicional, já seria suficiente para a construção de cinco armas nucleares ou mais.

Ainda não se sabe se o Irã continua com as tentativas de projetar e construir uma arma. As mais recentes estimativas dos serviços americanos de informações concluem que o Irã suspendeu boa parte do seu programa de armas depois de 2003, embora haja evidências de que resquícios deste programa continuam em atividade.

O Irã negou inicialmente que suas instalações de enriquecimento tivessem sido atingidas pelo Stuxnet, declarando depois ter encontrado o worm e detido seu avanço.

No ano passado, o país anunciou a criação de sua própria unidade de combate cibernético, e o general de brigada Gholamreza Jalali, diretor da Organização de Defesa Passiva do Irã, disse que o Exército do país estava preparado para "combater os inimigos no campo de batalha cibernético e na internet".

Mas há pouco que indique o início de um contra-ataque iraniano.

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