'Obama precisa da reforma imigratória'

Professor da Universidade de Harvard culpa lobbies conservadores pelo atraso na nova política de imigração dos EUA

Entrevista com

John Willshire-Carrera, advogado e professor da Universidade de Harvard

FERNANDA SIMAS, O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2014 | 02h02

A crise migratória nos EUA provocou um aumento de 77% no número de menores desacompanhados que cruzaram a fronteira americana com o México. Segundo o escritório de Alfândegas e Proteção de Fronteiras (CBP, na sigla em inglês), 68.541 menores foram detidos quando tentavam entrar no país entre outubro de 2013 e setembro. No mesmo período do ano anterior, o número foi de 38.759. Com o aumento, as escolas públicas precisaram se adaptar rapidamente, porque muitas crianças não sabem ler e escrever em inglês. Uma lei de 1981 determina que todos devem ser aceitos como alunos, independentemente do status legal. A decisão aplica-se ao ensino primário e secundário. Com isso, algumas instituições criaram cursos especiais para a adaptação dOs imigrantes.

Para o advogado e professor de Harvard John Willshire-Carrera, peruano que imigrou para os EUA aos 14 anos e dirigiu o projeto de pesquisa da Fundação Ford, em 1987, sobre a implementação da decisão, é preciso aprovar uma reforma imigratória para permitir que os imigrantes consigam cursar uma faculdade. "Os tribunais estão cheios e, no Congresso, pessoas não permitem o avanço de propostas", disse. A seguir, os principais trechos de sua entrevista ao Estado.

A decisão de 1981 pode ser alterada?

É um caso da Suprema Corte. Então, a preocupação é que em algum momento outro caso apareça e o substitua. No entanto, em termos de direitos dos imigrantes e direitos educacionais, é uma decisão muito antiga e respeitada.

Todos os Estados devem seguir a decisão?

Todas as crianças em situação irregular têm o direito de ir à escola pública sem obstáculos. Essa é a lei. A questão é como essas crianças se adaptarão. No geral, acho que os professores são bons nisso, mas existe resistência, muito sentimento anti-imigração e racismo. Essas questões acabam usadas contra as crianças, que são quem mais sofrem. A maioria das escolas públicas luta pela aplicação da lei, mas em alguns casos é um problema real.

Algumas escolas desenvolveram programas para imigrantes. Qual a importância disso?

Existem muitas crianças que nasceram aqui, mas em comunidades ou famílias em que o inglês não é a única língua. Então, não são apenas as crianças estrangeiras que têm dificuldades com o idioma. Além disso, existem crianças que vêm de locais onde não tiveram a educação apropriada, talvez porque vieram de uma região em guerra, ou porque o local não tinha muita oferta de educação ou até porque os pais não tinham condição de pagar. Com isso, há uma concentração de crianças que não sabem inglês e não têm um bom nível de educação formal. Existem regiões do país onde isso ocorre e os professores tentam fazer a coisa certa, tornar a escola um local de aprendizado e integração. Dependendo de quanta resistência existe.

É possível que Obama faça a reforma imigratória antes da eleição de 2016?

Obama precisa da reforma imigratória. Ele deveria se impor na defesa dos direitos das pessoas, especialmente dos imigrantes. Existe uma grande comunidade de imigrantes no país que vota. O que o presidente faz sobre questões imigratórias, obviamente, é muito importante, principalmente por estarem sendo discutidas há tanto tempo. Muitos imigrantes ilegais trabalham demais e sentimos que algo precisa ser feito. Politicamente, pode ser difícil fazer a reforma, mas acho que deveria encontrar forças para fazê-la. O entendimento geral é que o governo terá de fazer algumas mudanças administrativas. O que ocorrerá é uma questão política. O dinheiro é importante, compra eleições. E há muito dinheiro de conservadores americanos sendo aplicado em campanhas políticas e gerido por organizações anti-imigração. Por isso, esperamos que Obama faça algo. Ele fez no passado e pode fazer no futuro. Mas não é simples.

Isso mostra que a eleição é um ponto essencial para ações sobre imigração?

Sim, mas é preciso que algo seja feito. Querendo ou não, os tribunais estão cheios e, no Congresso, não permitiram o avanço de propostas nos últimos dois anos. Então, algo precisa acontecer.

Como o senhor viu a decisão de Obama, em 2012, de suspender a deportação de alguns imigrantes?

Foi uma decisão que basicamente afetou crianças que viviam nos EUA há muitos anos, permitiu que elas dessem continuidade a suas vidas. No meu escritório, tivemos diversos casos de crianças que nos procuravam, algumas já adultas naquela altura, e tivemos experiências maravilhosas defendendo essas pessoas, que são parte de nossas comunidades. Existe essa ideia de que os imigrantes estão vindo e não vão à escola. Isto não é verdade. Muitos não podem ir para uma universidade porque não têm direito. A lei não se aplica à educação superior. Então, esses imigrantes não podem seguir suas vidas. A decisão de Obama realmente permitiu que elas seguissem adiante. Agora, vemos aquelas pessoas voltando e se inscrevendo em faculdades. Foi um momento de esperança para essas crianças e parentes.

Alguns analistas apontam essa medida como causa da situação atual. Como o senhor vê isto?

Naquela época, vimos muitas crianças chegando, algumas vinham encontrar os pais, outras estavam com eles. Muitas pessoas se perguntam por que as crianças continuam vindo. Bom, muitas delas vêm em razão da situação no país em que vivem. Algumas chegam como refugiadas. Outras vêm para encontrar os pais que chegaram aqui há muitos anos pelas mesmas razões. Então, acredito que a razão da decisão era regularizar a situação daqueles que não tinham documentos, mas estavam vivendo aqui. Havia milhares de pessoas nessa situação e o que aconteceu foi que elas receberam a permissão para fazer parte da sociedade. Agora, existe a mesma pressão para permitir que as crianças que chegam possam seguir adiante.

Como o senhor se sente trabalhando com os imigrantes?

Sou um imigrante também. Nasci no Peru e vim para cá com 14 anos, estudei aqui. Fiquei ilegal por um ano e meio. Sei como é passar por isso. Eu me tornei advogado, leciono em Harvard. Como me sinto? É a minha comunidade, são pessoas como eu e sinto que fazemos um trabalho bom. Eu represento sobreviventes, pessoas muito fortes. Viver de forma irregular neste país é viver sob estresse. Parte disso tem a ver com o fato de o Congresso não permitir mudanças que impeçam situações de discriminação. Isto é um ponto crucial para esse país lidar com essas questões.

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