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Obama precisa ir além do ''poder inteligente''

Raramente tanta esperança se defrontou com tanta ansiedade

Roger Cohen, Internacional Herald Tribune *, O Estadao de S.Paulo

15 de janeiro de 2009 | 00h00

A próxima novidade é o "poder inteligente". A expressão foi usada durante a sabatina de confirmação da senadora Hillary Clinton, na Comissão de Relações Exteriores do Senado. Significa usar todos os instrumentos de influência - sejam diplomáticos, econômicos, militares, legais, políticos e culturais - para obter o que se pretende. Não tenho nada contra o poder inteligente, uma mistura de poder brando e duro. É melhor do que o poder "burro", de que já tivemos uma dose considerável. O poder burro afasta os amigos, privilegia a força, mina a autoridade moral dos EUA, e proclama guerras sem fim. Mas o que eu quero do governo Barack Obama é algo mais do que os sujeitos inteligentes que transitam de Harvard a Washington. Quero o realismo mágico. Raramente tanta esperança se defrontou com tanta ansiedade como nestes dias antes de Obama se tornar o 44º presidente dos EUA, o primeiro, negro. No Capitólio, onde ele prestará juramento, Obama estará diante de Abraham Lincoln, que salvou a União em uma guerra contra a escravidão, e no lugar em que Martin Luther King pronunciou o discurso em que falou: "Eu tenho um sonho." Seria difícil imaginar uma expressão mais repleta de possibilidades para os EUA neste momento de indigência para o país. Obama, então, se mudará para a Casa Branca, que escravos ajudaram a construir, para enfrentar a pior crise econômica desde a década de 30. A reconciliação, a transcendência e uma grande reafirmação da mitologia das possibilidades americanas competem com o endividamento, a dúvida e a depressão. Se se apresentarem em igual medida, qual delas poderá predominar? Uma coisa parece certa: o derretimento perdurará pelo menos nos primeiros 18 meses da presidência de Obama. O Tesouro está zerado; os americanos, mergulhados em dívidas. Mas este mestiço de 47 anos sempre teve algo de providencial, uma figura global que se parece mais com o sujeito do bar ao lado, do que com as figuras impressas nas notas de US$ 1. Mágica é isto. Ele precisa desta mágica, que ressoa numa voz com a clareza solene de um sino. O poder inteligente não será suficiente. Se fosse, os americanos teriam eleito Hillary Clinton para a presidência. Mas em seu eterno bom senso, os americanos intuíram a necessidade imperativa de procurar além da inteligência algumas outras qualidades inefáveis, capazes de unir e de inspirar em um momento de divisão nacional e global. Inevitavelmente, a nação se volta para 1932. "Não temos nada a temer, a não ser o medo", disse Franklin D. Roosevelt em seu primeiro discurso de posse, com a economia em frangalhos por causa da Depressão. Ele também disse: "Esta nação exige uma ação e agora." A ação veio, abundante - uma torrente de leis e discursos nos cem primeiros dias -, destinada a pôr o país em movimento. Obama prometeu um amplo pacote econômico, mas também pediu para não alimentar expectativas exageradas, afirmando que a situação pode piorar. Talvez seja verdade, mas ele terá de ser cauteloso. O excesso de realismo pode acabar com ele. Harvard precisa ser contrabalançada pelo Havaí. Duas das maiores armas que ele tem são a linguagem, que usa melhor do que qualquer outro dos últimos presidentes, e o vínculo que estabeleceu com o povo americano. Isto é mágica. Seu discurso de posse deve inspirar, depois dos oito áridos anos com um líder - o presidente George W. Bush - que não conseguiu encontrar dentro de si uma única frase que animasse o coração. Obama precisa apresentar aos americanos um novo paradigma, algo que vá além da luta contra o terror, e traga parceiros para um país reinventado, menos poderoso, mas ainda indispensável, num impulso compartilhado rumo a uma maior prosperidade, a uma energia mais limpa e a uma maior segurança. Quando as pessoas estão deprimidas, precisam de amigos. Hillary estava certa ao afirmar: "Devemos construir um mundo com mais parceiros e menos adversários." Um bom início seria ter consciência de que a própria tecnologia que rompe barreiras, e ajudou os EUA a atingir o ápice de seu poder após a 2ª Guerra, agora democratizou o conhecimento de formas que eles não conseguem controlar. A visão de mundo apresentada no Oriente Médio pela Al-Jazira não é receptiva à lógica ocidental. Ela tem sua própria lógica. A riqueza também migrou para um arquipélago de novas potências, como o Brasil, a Rússia, a China, a Índia e os países do Golfo. Quando perguntaram a Gandhi o que ele pensava da civilização ocidental, ele respondeu: "Acho que seria uma boa ideia." A Pérsia é uma antiga civilização e também o lugar onde as centrífugas estão operando. A difusão do poder e do conhecimento exige uma nova humildade dos EUA, mas ainda não existe uma ideia tão potente quanto o americano incorporado na ascensão de Obama. Somente se ele puder atrelar a mágica de tudo isso ao novo realismo, conseguirá congregar a energia necessária para superar a crise americana. O poder inteligente não pode anunciar a promessa adiada do século 21. Obama poderá fazer algo pior do que colocar sobre sua nova mesa de trabalho as palavras de um romancista dotado de grande magia e realismo, Salman Rushdie: "Talvez seja esta a maldição da raça humana: o problema não está em sermos tão diferentes uns dos outros, mas em sermos tão parecidos." *Roger Cohen é colunista

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