Obama precisa liderar

A nova ordem mundial pede menos discursos e mais ações do presidente

Fareed Zakaria*, The Washington Post/O Estado de S.Paulo

12 Maio 2014 | 02h05

Em política externa, há uma maneira rápida de entrar nos livros de história: cometer um grande erro. Lyndon Johnson e George W. Bush podem ter certeza de que, não importa o que mais se diga sobre eles, suas decisões que levaram à intervenção militar e à guerra serão discutidas por muito tempo. O segundo caminho - um grande sucesso - é menos garantido. A abertura de Richard Nixon para a China foi rapidamente vista como histórica. No entanto, as muitas decisões brilhantes e ousadas de Truman - contenção, Otan, Plano Marshall - não foram saudadas como tais na época.

O presidente Barack Obama não cometeu um grande erro. Ele fez um trabalho hábil para tirar os EUA das águas turvas que herdou - Iraque, Afeganistão - e resistiu a mergulhar o país em outro grande conflito com todas as complicações que isso fatalmente traria. Obama, porém, foi menos hábil nos aspectos construtivos da política externa, na construção de um edifício de realizações. Ainda há tempo de corrigir isso.

Os críticos afirmam que o mundo está confuso e a geopolítica voltou com força - vejam o caso da Ucrânia. A verdade é que, como frequentemente assinalou John Ikenberry, de Princeton, a ordem mundial, liderada pelos EUA, construída após a 2.ª Guerra, continua em vigor, sete décadas após sua criação. Sobreviveu aos desafios da Rússia soviética, da China maoista e, recentemente, do Islã radical.

A revista britânica The Economist enumerou, na semana passada, os 150 maiores países do mundo. Noventa e nove deles pendem ou pendem fortemente para os EUA; 21, não. Washington tem cerca de 60 tratados com aliados. A China tem um. A Rússia não é uma potência global em ascensão tentando derrubar a ordem mundial liberal. É uma potência em declínio, apavorada porque os poucos países que ainda orbitam em torno dela estão se afastando inevitavelmente.

Parte do problema de Obama foi que ele fez pronunciamentos grandiosos sobre questões nas quais não usaria, obrigatoriamente, o poder americano - Síria e a Primavera Árabe são os exemplos mais claros. O discurso se tornou o substituto da ação. E, sobre as questões nas quais os EUA estavam envolvidos - Ucrânia e Ásia -, suas declarações foram estranhamente brandas.

Em seu discurso para líderes europeus sobre a Ucrânia, Obama tocou na maioria das teclas certas, mas também forrou o discurso com advertências sobre não atuar militarmente. É difícil incitar o mundo à ação e a seguir os EUA, com o presidente dizendo o que ele não fará e não o que fará.

No entanto, o problema maior é que os críticos querem a satisfação moral e política de uma grande luta global. Nós acusamos Vladimir Putin de ser nostálgico da Guerra Fria, mas elites de Washington - políticas e intelectuais - também sentem falta dos velhos tempos.

Eles têm saudade de um mundo onde os EUA dominavam por completo seus amigos, onde seus inimigos deviam ser totalmente evitados e os desafios eram consumados, morais e vitais. O mundo atual é confuso e complicado. A China é um de nossos maiores parceiros comerciais e nosso nascente rival geopolítico. A Rússia é uma estraga-prazeres grosseira, mas tem uma classe média globalizada e criou laços na Europa. Novos atores regionais, como Turquia e Brasil, têm ideias próprias e não serão facilmente tutelados.

Precisamos de um conjunto de estratégias sofisticadas para fortalecer o sistema global, mas também manter as principais potências nele. Com a Ucrânia, por exemplo, é vital que Obama mobilize o mundo contra a violação de fronteiras e normas pela Rússia. E, no entanto, a única solução de longo prazo para a Ucrânia tem de envolver a Rússia. Sem a adesão de Moscou, a Ucrânia não poderá ser estável e bem-sucedida (o país precisa de US$ 17 bilhões para vencer sua crise imediata; não faria sentido tentar dividir esta conta com Moscou?).

A estratégia de Obama de exercer pressão sobre Moscou, usando sanções seletivas e mobilizando apoio na Europa é correta - e poderia até mostrar alguns sinais de que está funcionando.

Com a China, o desafio é oferecer as garantias que outros países asiáticos querem, mas também cuidar para que o pivô não se transforme numa estratégia de contenção contra a segunda maior potência econômica e militar do mundo. Isto resultaria numa Guerra Fria na Ásia que nenhum país asiático deseja e também não serviria aos interesses americanos.

A moderação de Obama lhe serviu bem para evitar erros, mas também produziu uma abordagem estranhamente minimalista para sua agenda de política externa construtiva. Do pivô para a Ásia, aos novos acordos comerciais, às sanções à Rússia, Obama propôs uma agenda que é ambiciosa e importante, mas ele a aborda cautelosamente, como se o seu coração não estivesse nela, parecendo antes empurrado pelos fatos do que moldando-os.

*Fareed Zakaria é colunista.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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