Obama presencia o surgimento de duas Américas Latinas

Crescimento leva a região a acentuar diferenças internas

Jorge Castañeda, Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2011 | 00h00

O corrente giro do presidente americano, Barack Obama, pela América Latina, provavelmente, terá pouca substância, muitos floreios retóricos e simbolismos e poderá incluir alguns anúncios que afetam os negócios dos EUA na região. Mais importante do que isso, porém, é que ele verá histórias de sucesso reais e como a região como um todo mudou.

A principal mudança é que a América Latina está dividida em duas. Aliás, essa pode ser a última viagem que um presidente americano faz à "América Latina". Visitas posteriores serão ou à América do Sul ou ao México e ao Caribe.

Antes inspiradora, a notícia do sucesso do Chile já é velha. Mais de duas décadas de democracia e crescimento econômico praticamente garantirão que, se apenas se mantiver no curso, o país chegará perto do status de país desenvolvido em 2020.

E há todas as razões para se acreditar que ele se manterá no curso, mesmo que o presidente Sebastián Piñera, que administrará o melhor desempenho econômico do Chile em 15 anos, for sucedido pela ex-presidente e rival Michele Bachelet em 2014. Até a proverbial desigualdade do país está começando a diminuir, ainda que lentamente, e os padrões de vida da baixa classe média estão finalmente avançando para o lugar que deveriam estar há uma década.

O sucesso do Brasil também é bem conhecido. Milhões de famílias foram tiradas da pobreza. A desigualdade diminuiu, ainda que de níveis astronomicamente altos. A economia está crescendo num ritmo sustentável. E, enquanto a China e a Índia mantiverem seu apetite insaciável por commodities, as exportações do Brasil financiarão o boom atual de consumo.

Na arena internacional, a presidente Dilma Rousseff se afastou dos excessos de Luiz Inácio Lula da Silva: indiferença a abusos a direitos humanos, apoio ao Irã e a seu programa nuclear e a retórica antiamericana. O Brasil vem cozinhando a questão sobre qual fornecedor escolher para renovar a frota de caças de sua Força Aérea. Enquanto Lula privilegiava a França, Dilma parece ter mudado de rumo e pode estar se inclinando para os EUA.

El Salvador é a história de sucesso mais interessante da América Latina. O país está longe de ser um quadro de saúde e de estabilidade, com altos níveis de criminalidade e violência, emigração em massa, economia em lento crescimento e tensões perpétuas no interior do governo de coalizão de centro-direita.

Guerra civil. Em 2012, contudo, o país celebrará o 20.º aniversário dos Acordos de Paz de Chapultepec, que encerraram uma década de guerra civil. Desde então, uma nação que nunca realmente experimentara um regime democrático desfrutou de todos os charmes e dificuldades de eleições competitivas, batalhas legislativas e rotação no poder.

Após uma sucessão de governos conservadores, em 2009 os salvadorenhos elegeram um presidente que concorreu pela Frente Farabundo Martí para Libertação Nacional (FMLN), antigo grupo guerrilheiro que combateu o Exército salvadorenho e seu aliado americano nos anos 80. A direita aceitou a derrota e a esquerda governou razoavelmente, mantendo o dólar como moeda nacional.

Os EUA ajudariam ainda mais se avançassem na reforma da imigração. El Salvador, juntamente com Equador, lidera o mundo em termos de emigração. O país tem também uma economia que não está crescendo o suficiente para conter a maré humana que está entrando nos EUA por meio do México.

O crescimento estagnado e a imigração são os dois principais fatores que causam a divisão nas Américas. A América do Sul está se expandindo, enquanto Índia e China engolem suas exportações de ferro, cobre, soja, café, carvão, petróleo, trigo, aves, carne bovina e açúcar. Seus padrões de comércio exterior e investimento são diversificados e dinâmicos. Com poucas exceções, a migração ocorre internamente e um modus vivendi foi alcançado com o tráfico de drogas, principalmente de folha de coca e cocaína na Bolívia, no Peru e na Colômbia.

Além disso, as relações com os EUA, embora importantes, já não são supremas. Governos sul-americanos podem se dar ao luxo de discordar dos americanos, e o fazem com frequência. Eles acabam de eleger um novo presidente da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), cuja sede está em construção em Quito, Equador. Como seu nome sugere, a principal razão de ser da Unasul é excluir Canadá, EUA e México (em relação à Organização dos Estados Americanos).

Nada disso vale para México, América Central e as ilhas do Caribe - sobretudo para a República Dominicana, mas eventualmente para Cuba também e, de maneira particular, para o Haiti. Não há países ricos em minerais ou com uma agricultura pujante na região: um pouco de café e banana aqui, de açúcar e carne bovina ali, mas nada para sustentar um grande boom de desenvolvimento. Embora o México seja o segundo maior fornecedor de petróleo para os EUA, isto representa somente 9% de suas exportações totais.

Em vez disso, esses países exportam bens manufaturados de baixo valor agregado (o México exporta mais, é claro) e vivem de remessas de dinheiro de fora, turismo e lucros do tráfico de drogas para outros mercados.

Tudo isto está extremamente concentrado nos EUA: é onde os emigrantes estão, para onde as toalhas e pijamas são despachados, de onde vêm os turistas e onde as drogas são compradas. Para esses países, incluindo o México, manter relações estáveis, estreitas e produtivas com os EUA é fundamental.

Obama dirá todas as coisas certas durante sua visita e será ovacionado por todas as partes. No entanto, ele deveria meditar sobre as mudanças que estão ocorrendo na região. Uma área está se libertando da hegemonia americana e prosperando, mas pode afundar, caso o crescimento chinês e indiano desacelerem. A outra está cada vez mais integrada aos EUA e ao Canadá. A América Latina já não é uma entidade única. Longa vida à América Latina. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É EX-CHANCELER DO MÉXICO E PROFESSOR DE POLÍTICA E ESTUDOS LATINO-AMERICANOS NA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK

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