Obama quer afastar rótulo de elitista

Senador inicia ofensiva ?povão? para tentar conquistar votos do eleitorado branco, da classe trabalhadora

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

05 de maio de 2008 | 00h00

A pré-candidata democrata Hillary Clinton chamou de "elitistas" os críticos de sua proposta de isenção do imposto sobre a gasolina. Hillary e o candidato republicano John McCain propuseram eliminar o imposto durante as férias de verão do Hemisfério Norte, para dar um alívio aos consumidores que estão sofrendo com a alta dos preços da gasolina. Inúmeros economistas e o pré-candidato Barack Obama criticaram a proposta, dizendo que a isenção é ineficiente, vai estimular ainda mais o consumo de gasolina e incentivar a indústria de petróleo a aumentar preços. "Precisamos parar de seguir a opinião da elite, que sempre prejudica a grande maioria do povo americano", disse Hillary ontem, afirmando que não se alinha com a maioria dos economistas e outros críticos. Mais uma vez, Hillary tentou estampar em Obama o rótulo de elitista, de político desconectado da realidade do eleitor médio americano. Os dois pré-candidatos democratas estão em Indiana, que realiza sua primária amanhã. Obama vem tendo dificuldades para ganhar votos do eleitor branco, de classe trabalhadora, com pouco estudo - eleitorado cativo de Hillary. Em uma festa de arrecadação de fundos em São Francisco, Obama disse que muitas pessoas de cidades pequenas dos EUA estão "amargas" por causa da situação econômica "então se apegam à religião, às armas" e se tornam xenófobas e protecionistas. Desde então, ele vem perdendo votos dessa fatia do eleitorado. Uma pesquisa Yahoo/AP mostrou que 53% dos eleitores brancos que não completaram a faculdade têm uma visão negativa do senador. Nos últimos dias, Obama lançou-se numa ofensiva "povão" em busca desses votos. Ontem, de camisa com mangas arregaçadas e sem gravata, Obama participou de um piquenique em Fort Wayne, cidade no norte de Indiana. Em um ambiente descontraído, Obama voltou a falar sobre as dificuldades econômicas do país. No sábado, levou toda a família para um rinque de patinação - a mulher, Michelle, e as filhas, Malia, de 9 anos, e Sasha, de 6. Temendo uma gafe ainda pior do que os discursos do reverendo Jeremiah Wright, Obama não se aventurou a calçar os patins. Limitou-se a ajudar as filhas.Na quinta-feira, Obama e Michelle foram almoçar na casa de Mike Fischer, um maquinista de trem de um subúrbio de Indianápolis. O casal comeu sanduíche com batatas fritas do Subway e conversou sobre as demissões na empresa onde Fischer trabalha. Em todas essas paradas, o senador vem enfatizando suas raízes humildes - filho de mãe solteira, que só conseguiu estudar em Harvard porque tinha bolsa de estudos, e trabalhou como líder comunitário. E Obama caprichou no discurso populista que vem garantindo votos a Hillary. A senadora está 5,8 pontos porcentuais à frente de Obama nas pesquisas em Indiana. Os dois já estiveram virtualmente empatados no Estado. Na Carolina do Norte, que também fará sua primária na terça-feira, Obama tem 7 pontos a mais que Hillary, vantagem que já foi bem maior. Apesar de discorrer longamente sobre a crise das hipotecas, o poder dos lobbies e a indústria do petróleo, sua oposição à isenção de impostos sobre a gasolina pega mal com os eleitores. Ele acusa Hillary de demagogia. A proposta é ineficiente, mas vem arrebanhando defensores. "Os dois têm planos para estimular a economia, mas só Hillary vai reduzir o preço da gasolina", diz o estudante Bryan C. Miller da cidade de Terre Haute, em Indiana. "Obama não vai se esforçar tanto para ajudar a classe média trabalhadora." Bryan e sua namorada Jamie acham que Hillary vai fazer mais para evitar que as pessoas percam suas casas com a crise. "Acho ofensivo que pessoas que não precisam se preocupar em encher o tanque ou sobre quanto gastam quando vão ao supermercado afirmem ser ilegítimo dar um alívio a milhões de pessoas que estão prestes a perder seus empregos, e não conseguem arcar com seus gastos diários", disse Hillary.

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