Obama reage a ameaça de jihadistas

Presidente condena decapitação de jornalista e indica ampliação de ataques no Iraque após radicais prometerem executar outro repórter

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL / IRBIL, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2014 | 02h04

O governo dos EUA confirmou ontem a autenticidade do vídeo em que o jornalista James Foley é decapitado por um militante do Estado Islâmico (EI), grupo que ameaça executar outro jornalista americano, Steven Sotloof, se bombardeios contra suas posições no Iraque não cessarem. O presidente Barack Obama pediu ajuda à comunidade internacional para combater os jihadistas e descartou a possibilidade de recuo militar.

"Os EUA serão vigilantes e incansáveis para fazer o que for necessário para que justiça seja feita", afirmou Obama, na residência presidencial de descanso em Martha's Vineyard. "Hoje o mundo inteiro está chocado com o assassinato brutal de James Foley pelo grupo terrorista Isil (Estado Islâmico no Iraque e no Levante, seu antigo nome antes de declarar um "califado" multinacional). Tem de haver um esforço comum para extrair esse câncer para que não se espalhe." Obama acusou os militantes de matar civis inocentes, submeter mulheres e crianças a tortura, estupro e escravidão e ter como alvo muçulmanos, cristãos e minorias religiosas. "Este grupo não representa nenhuma religião", disse.

Segundo oficiais ouvidos pela agência Associated Press, uma missão para resgatar reféns na Síria fracassou recentemente. Soldados de elite entraram em confronto e mataram alguns jihadistas, mas partiram sem encontrar os sequestrados.

O jornal The Washington Post perguntou ontem a um funcionário do governo se os EUA cogitariam a hipótese de suspender os bombardeios. "A única questão é se faremos mais", respondeu. O Pentágono estuda pedido do Departamento de Estado para mandar mais 300 soldados, que trabalhariam principalmente na proteção a Bagdá. Não há evidências de que o envio esteja relacionado a ameaças específicas. O Comando Central das Forças Armadas informou ter executado ontem 14 bombardeios perto da represa de Mossul, no norte do Iraque, elevando para 84 o número de ataques aéreos desde o início da campanha contra o EI.

Ameaça. No vídeo divulgado pelo grupo, depois de decapitar Foley, o homem encapuzado exibe Sotloff, e diz: "A vida deste cidadão americano, Obama, depende de sua próxima decisão". A morte de Foley e a ameaça contra Sotloff devem resultar em uma pressão maior ainda sobre o presidente para intensificar as ações contra o EI e armar os peshmergas, os soldados curdos. "Precisamos confrontar seriamente essa força, até mesmo armando agressivamente aqueles que a enfrentam", diz uma nota divulgada pelo deputado republicano Edward Royce.

Foley trabalhava como freelancer para o site GlobalPost, pertencente ao jornal Boston Globe. O repórter do Estado o conheceu em Benghazi, em 2011, durante a guerra civil líbia, antes de ele ser capturado, com uma jornalista americana e um espanhol, por soldados leais ao então ditador Muamar Kadafi. Um jornalista sul-africano foi morto na ação. Os três ficaram presos durante 44 dias. Ele foi capturado de novo em 2012, no norte da Síria e era mantido refém até agora. Sotloff também é freelancer e trabalha para a revista Time, entre outras publicações. Ele foi capturado em agosto de 2013, também na Síria, onde o EI ocupa o norte e o nordeste.

O vídeo começa com uma declaração de Foley, ajoelhado, com a cabeça raspada e um abrigo laranja, a cor dos uniformes dos presos americanos, em que ele critica os Estados Unidos por bombardear o EI. Ele se dirige a seu irmão, John, da Força Aérea, dizendo que, com os bombardeios, seus colegas pilotos "assinaram seu certificado de óbito". Foley conclui dizendo que "gostaria de não ser americano".

Os pais de Foley, que ontem receberam um telefonema de Obama, declararam estar orgulhosos. "Jamais estivemos mais orgulhosos de nosso filho Jim. Ele deu sua vida tentando mostrar ao mundo o sofrimento do povo sírio", escreveu Diane Foley na página do Facebook destinada à libertação do filho.

O primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David Cameron, encurtou suas férias e a inteligência britânica tentava identificar o assassino de Foley, que aparenta ter sotaque londrino. O chanceler iraquiano, Hoshiyar Zebari, fez um apelo por ajuda para seu país contra o Estado Islâmico, que ele descreveu como uma ameaça mundial. / COM AP e REUTERS

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