Obama recebe Xi para discutir nova agenda bilateral

Nesta semana, na Califórnia, líderes encontram-se pela 1ª vez, desde a posse do chinês, para debater ciberataques e espionagem

DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

02 Junho 2013 | 02h04

Com as relações bilaterais estremecidas pelos ciberataques da China aos EUA, os presidentes Xi Jinping e Barack Obama começam nesta semana a discutir compromissos para evitar o pior dos cenários - o de conflito entre as duas potências nucleares e econômicas. Na agenda, estará a construção de uma rede de confiança mútua entre os dois governos.

Xi e Obama se reunirão em Sunnylands, no sul da Califórnia, sábado e domingo. O que sair dali pode vir a garantir a paz entre Washington e Pequim nos próximos dez anos - Obama fica no poder até 2016 e Xi, potencialmente, até 2023.

O conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Tom Donilon, esteve com Xi na segunda-feira para a preparar a visita aos EUA e foi direto ao ponto: a relação bilateral enfrenta "conjuntura crítica" e será preciso construir "um novo tipo de ampla relação de poder".

"Está muito claro que os dois líderes reconhecem não ser de interesse de nenhum lado que as relações entre EUA e China caminhem na direção errada", avaliou o ex-embaixador americano em Pequim J. Stapleton Roy, diretor do Instituto Kissinger, do Wilson Center. "Caminhar na direção positiva é difícil, mas não impossível. Temos muitos interesses comuns e também áreas de fricção, que podem ser administradas."

Roy espera que os dois líderes conversem francamente sobre os grandes dilemas da relação bilateral e tracem uma espécie de guia para que seus governos reduzam as rivalidades estratégicas. A conversa, acrescentou ele, "não pode ser vazia". Nicholas Lardy, especialista em Ásia do Instituto Peterson, afirmou não esperar acordos bilaterais, mas o início de uma relação pessoal sincera e informal entre Obama e Xi.

Temas. O local escolhido para o encontro permitirá passeios a pé e conversas em ambientes mais descontraídos do que as sedes dos dois governos. Obama e Xi terão chance de conversar abertamente sobre os ciberataques, a disputa entre a China e o Japão pelas ilhas Diaoyu/Senkaku e o papel das forças militares americanas no sudeste da Ásia.

O primeiro desses dilemas, segundo Lardy, é "a maior das ameaças" para a relação bilateral. Como sublinhou Roy, os EUA acusam a China pelos ataques, mas Pequim diz não ser responsável por eles e também ser uma vítima dos hackers.

"Os ciberataques têm um enorme impacto negativo sobre as relações bilaterais porque comprometem desde a propriedade intelectual de companhias americanas até o domínio dos projetos e planos militares sensíveis", afirmou Lardy.

Dezenas de projetos militares americanos foram recentemente vasculhados por hackers supostamente chineses. Entre eles, o do caça F-35 Joint Strike, do sistema de mísseis balísticos de defesa Aegis, do veículo aéreo Global Hawk e do sistema antimísseis Patriot Advanced Capability 3. Empresas americanas, sobretudo de tecnologia, são alvo de hackers.

Segundo Roy, entendimentos entre Xi e Obama nessa área podem resultar, no futuro, em um arcabouço de regras internacionais sobre ciberataques. Além disso, neste momento, poderão aliviar uma crescente tensão. "Essa é a oportunidade para os dois países estabelecerem regras sobre o que é permitido e sobre como os países podem reagir no caso de ciberataques."

Outro debate é a crescente atuação militar dos EUA na Ásia. Para Lardy, a presença militar americana na Austrália e no sudeste da Ásia não chega a ser um indicador real de antagonismo à China. "O envio dessas tropas não muda o equilíbrio de poder. É apenas um gesto simbólico, que vem sendo mal interpretado em Pequim."

Dois antigos focos de atrito, a Coreia do Norte e a Síria, saíram da agenda em razão de mudanças nas posições do governo chinês. Pequim tem sido cada vez menos tolerante com Pyongyang. "Há congruência entre EUA e China sobre como aumentar a pressão sobre a Coreia do Norte em favor da retomada das negociações entre as partes sobre a desnuclearização do país", afirmou Lardy.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.