''Obama representa continuidade''

Robert Kagan: cientista político; Para um dos principais neoconservadores dos EUA, novo presidente já demonstrou que não dará guinada na política externa

Entrevista com

Roberto Simon, O Estadao de S.Paulo

14 de fevereiro de 2009 | 00h00

Nadando contra a maré de otimismo provocada pela eleição de Barack Obama, Robert Kagan, do Carnegie Endowment for Peace, adverte: "Não espere grandes mudanças na política externa dos EUA. Com Obama, haverá continuidade." Cofundador do centro de estudos Project for the New American Century - bastião neoconservador que teve forte influência sobre o governo George W. Bush -, Kagan disse ao Estado que os EUA se manterão fiéis a seus fundamentos diante da ascensão de "autocracias", como a Rússia e a China.Em um artigo intitulado "Obama, o intervencionista", publicado em 2007, o senhor disse que o então pré-candidato democrata teria uma política externa "idealista", calcada na promoção de valores americanos. Mas, desde sua posse, Obama tem mostrado pragmatismo, por exemplo ao tentar dialogar com Irã. O que mudou?Não considero que dialogar com o Irã vá contra aquilo que eu havia dito em 2007. Se olharmos para as pessoas que ele escolheu - (a secretária de Estado) Hillary Clinton, (o assessor para Segurança Nacional) Jim Jones e (o secretário de Defesa) Robert Gates -, certamente esses nomes não representam uma revolução. É uma continuidade. Em relação aos seus atos, uma das primeiras medidas do novo governo foi autorizar bombardeios dentro do Paquistão. No Afeganistão, a ênfase continua sendo na dimensão militar e não no desenvolvimento do país. Quanto ao Irã, ele diz querer conversar, mas o conteúdo da conversa é o mesmo que esteve em pauta nos EUA na última década - evitar que Teerã adquira armas nucleares. E se esse "diálogo direto" fracassar? Isso Obama ainda não respondeu. Uma coisa é clara: qualquer um que espere uma alteração drástica nos objetivos e meios da política externa americana se desapontará com Obama. A ideia de que os EUA devem apoiar e promover seus ideais no mundo é parte fundamental da ação americana e o presidente não deu nenhum indício de que abandonará essa tradição.Desde que assumiu, Obama tomou medidas para reverter o legado de George W. Bush, do fechamento de Guantánamo em um ano, ao veto às prisões secretas da CIA. Como o senhor avalia essas políticas?Eu concordo com o fechamento de Guantánamo, mas Obama já percebeu que é mais fácil falar do que fazer algo sobre isso. Diverti-me com o fato de europeus dizerem que podem aceitar alguns desses presos, sob a condição de que os detidos não venham mais a cometer atos terroristas - essas pessoas estão presas até agora justamente porque não sabemos o que acontecerá se as soltarmos (risos)! Concordo com as primeiras medidas, com seus objetivos, mas não será fácil cumpri-las. O senhor acredita que essas políticas podem, de fato, mudar a imagem dos EUA no mundo?Certamente Obama melhora a imagem americana em relação a Bush. Mas, do ponto de vista histórico, não é verdade que o mundo "amava" os EUA e, recentemente, passou a nos odiar. A América Latina é um ótimo exemplo disso: a região amou os Estados Unidos nos últimos cem anos?Em seu último livro, "O Retorno da História e o Fim dos Sonhos" (Editora Rocco), que saiu no mês passado no Brasil, o senhor critica a tese do "Fim da História" de Francis Fukuyama, para quem a democracia liberal triunfou com o fim da Guerra Fria. O senhor diz que isso foi uma ilusão e hoje poderes autoritários, como Rússia e China, "trouxeram de volta a história". Mas, recentemente, Fukuyama contra-argumentou, dizendo que o autoritarismo não representa uma alternativa ideológica real.Sou amigo de Frank, mas ele reformulou seus argumentos (risos). Em seu livro ele não fala sobre formas de autoritarismo, mas do triunfo da democracia. Digo apenas que a "inevitável" vitória da democracia, exaltada nos anos 90, nunca foi "inevitável". Ideias devem ser apoiadas concretamente nas potências mundiais e, agora, Rússia e China advogam um sistema autocrático. Não há hegemonia da democracia.O senhor participou, juntamente com Fukuyama, aliás, de uma campanha pela "troca de regime" em Bagdá um ano antes da invasão americana. Há arrependimentos?É difícil se arrepender de remover Saddam Hussein do poder. Se ele ainda governasse, teríamos muito mais problemas. Pessoas não valorizam o fim de Saddam e enfatizam as atuais dificuldades. A situação do pós-guerra foi comprometida pela péssima forma com que Bush conduziu a reconstrução. Os erros da inteligência americana quanto às armas de destruição em massa também foram graves. Pagamos um alto preço por isso, mas agora as coisas estão indo bem. Devemos ser pacientes.Quem é:Robert KaganÉ cofundador do centro de estudos Project for the New American Century, bastião neoconservador que exerceu forte influência sobre o governo de George W. Bush Trabalhou no Departamento de Estado entre 1984 e 1988 na equipe de planejamento de políticas É colunista do jornal ?The Washington Post?

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