Obama tem lições a tirar do Vietnã para o combate ao EI

Reflexos de decisões de Lyndon Johnson pesam contra tropas terrestres na Síria e no Iraque

FREDRIK LOGEVALL &, GORDON M. GOLDSTEIN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2014 | 02h03

Há 50 anos, o então presidente dos EUA, Lyndon Johnson, autorizou uma campanha de bombardeios estratégicos contra alvos no Vietnã, uma escalada do conflito que foi rapidamente seguida pela mobilização de tropas terrestres americanas na região.

No mês passado, o presidente Barack Obama estendeu a campanha de bombardeios estratégicos contra os insurgentes do Estado Islâmico (EI) no Oriente Médio, levando os ataques para a Síria, além das operações que já ocorriam no Iraque.

Obama repetirá a história e autorizará o envio de infantaria? Para muitos analistas, ele o fará e autoridades do alto escalão do governo vêm exigindo a adoção dessa medida. No entanto, o presidente tem demonstrado ceticismo quanto ao que as forças americanas poderão realizar nesse tipo de combate e resistido aos apelos dos falcões dentro e fora do governo que desejam que ele se envolva de modo mais profundo.

O presidente americano, segundo seus partidários, é um "triste realista" que aprendeu a lição da história, ou seja, que o poder militar dos EUA, mesmo que seja enorme em termos relativos, no final tem uma utilidade limitada em conflitos que tenham raízes políticas ou ideológicas mais fortes.

Hoje, vemos Lyndon Johnson como um homem firmemente decidido a vencer no Vietnã. No entanto, pelo menos no início, ele sentiu o mesmo pessimismo de Obama. Era um enorme desafio acabar com a insurgência. "Um homem consegue lutar se puder ver a luz do dia em algum ponto da estrada", afirmou, em março de 1965. "Mas não há luz do dia no Vietnã."

Johnson também sabia que os líderes democratas no Senado compartilhavam suas dúvidas e governos aliados eram contra uma escalada do conflito, defendendo uma solução pacífica. Então, porque Johnson assumiu o risco? Em parte, porque estava encurralado - não apenas por 15 anos de um envolvimento cada vez maior dos EUA na Indochina, mas, e mais importante, pelo fato de ele e seus assessores utilizarem uma retórica exacerbada para descrever os interesses no Vietnã e a sua confiança na vitória.

Além disso, Johnson personalizou a guerra, considerando qualquer crítica ao seu avanço como um ataque contra ele, o que comprometeu sua capacidade de avaliar o conflito objetivamente.

Conhecemos os resultados. Exatamente na semana em que confessou não ver "a luz do dia" no conflito, Johnson iniciou a Operação Rolling Thunder, uma campanha de bombardeios aéreos constantes e escalonados contra o Vietnã do Norte. Também naquela semana, despachou as primeiras tropas de combate. Logo depois, mais soldados foram enviados e, no final de 1965, 180 mil homens operavam no Vietnã do Sul. No fim, esse número chegou a meio milhão.

É difícil imaginar Obama ordenando o envio de novas forças de combate para o Iraque ou a Síria. O presidente está muito mais próximo em termos de sensibilidade e enfoque de um outro presidente da era do Vietnã, John F. Kennedy, que rejeitou as propostas de assessores e líderes militares para o envio de forças para o Vietnã, mas ampliou muito o envolvimento americano no conflito durante os mil dias em que esteve no cargo. Se ele poderia ter seguido a mesma trajetória, como Obama está tentando, não temos resposta.

No entanto, a questão não tem a ver com biografia, mas sim com a incapacidade de um presidente, quando se compromete com a intervenção militar, de controlar o curso dos acontecimentos. A guerra segue seu próprio caminho. Muitas das medidas mais importantes de Johnson na escalada do Vietnã foram adotadas em resposta a obstáculos imprevistos, recuos e limitações. Não há razão para crer que a mesma dinâmica não se repetirá em 2014.

E existe uma lógica política também. Tanto naquela época quanto hoje, o presidente enfrenta uma pressão implacável de todos os lados para fazer mais, entrar na luta e intensificar a batalha. Naquela época e hoje, a retórica alarmista do presidente e de autoridades do governo serviram para reduzir a margem de manobra, não apenas no campo da política interna. Johnson não era nenhum belicista e temia, corretamente, que o Vietnã se tornasse sua ruína. No entanto, levou o país a uma guerra prolongada que terminou em amarga derrota.

"Não acho que valha a pena combater e não acho que possamos sair disso", disse um taciturno Johnson, em 1964, a seu assessor de Segurança Nacional, McGeorge Bundy. Esperemos que o mesmo sentimento não exista hoje no Salão Oval. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

FREDRIK LOGEVALL É HISTORIADOR E VENCEDOR DO PRÊMIO PULITZER PELO LIVRO "EMBERS OF WAR: THE FALL OF AN EMPIRE AND THE MAKING OF AMERICA'S VIETNAM. GORDON M. GOLDSTEIN É CONSULTOR DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS E AUTOR DE "LESSONS IN DISASTER"

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