Obama tenta impor 'agenda positiva' na semana da convenção democrata

Passada a nomeação do republicano Mitt Romney, o presidente Barack Obama terá esta semana o desafio de responder as críticas e colocar o foco de sua agenda na convenção democrata, que começa terça-feira na Carolina do Norte. Há dificuldades no horizonte: o encontro não despertará o mesmo entusiasmo de 2008 e a montagem do evento em um Estado sulista e conservador, não é tarefa fácil.

DENISE CHRISPIM MARIN, ENVIADA ESPECIAL / TAMPA, EUA, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h07

Os democratas tentarão desfazer os estragos causados pelos ataques dos republicanos ao Medicare, programa de saúde gratuita a aposentados, que representa um dos maiores gastos públicos e é um dos pilares da campanha de reeleição de Obama.

Na semana passada, aliados de Romney culparam a reforma do sistema de saúde de Obama pela destruição do programa. Eles defendem que o Medicare seja reduzido à concessão de vouchers aos beneficiários.

"A maior ameaça ao Medicare é o Obamacare (como os republicanos chamam a reforma do governo). Vamos acabar com isso", declarou o arauto do ajuste fiscal do Congresso e candidato republicano à vice-presidência, Paul Ryan, em seu discurso, na quinta-feira.

A vice-gerente de campanha de Obama, Stephanie Cutter, adiantou a estratégia dos democratas. "Vamos com o tema do Medicare na semana que vem, mas de uma maneira positiva", disse.

A questão da seguridade a aposentados é especialmente delicada para ambos os partidos. A média de idade dos eleitores é cada vez mais alta e boa parte da geração dos "baby boomers", nascida nos anos de prosperidade após a 2.ª Guerra, decidirá seu voto de olho nesse ponto específico.

"Deixaremos claro aos idosos que o plano de Romney e de Ryan para acabar com o Medicare vai afetá-los", completou Stephanie, que acompanhou o evento de Tampa.

Obama, na semana passada, foi duramente atacado por oradores da convenção republicana. O ex-governador de Minnesota Tim Pawlenty, um dos principais conselheiros de Romney, comparou a gestão Obama a uma tatuagem bonita no papel, mas que não parece tão bem quando é passada para pele. O ator e diretor de cinema Clint Eastwood fez em público uma conversa imaginária com Obama, falando com uma cadeira vazia, onde se sentava "o presidente invisível".

"Quando uma pessoa não faz seu trabalho, você a manda ela embora", declarou o ganhador do Oscar, fazendo o sinal de degola na garganta.

O presidente americano aproveitou a semana republicana para fazer comícios em Estados que serão decisivos para sua reeleição, como Ohio. Terminado o discurso de Romney, na noite de quinta-feira, e-mails para pedir contribuições foram enviados em nome de Obama a milhares de simpatizantes. A campanha democrata fechou os últimos dois meses com arrecadação menor do que a republicana, já com quase US$ 200 milhões em fundos.

Segundo o analista político Thomas Mann, do Brookings Institution - mais próximo dos democratas -, Obama terá como principal trunfo o exame da imprensa sobre acusações falsas feitas pelos republicanos em sua convenção. Mais importante que isso, disse Mann, será o foco nas diferenças entre as políticas propostas por Obama e Romney, demonstrando que as do republicano não são diferentes das de George W. Bush.

Os organizadores tentam convencer os oradores a não apostar na retórica bélica e no exagero, para apresentar os democratas como o único grupo capaz de resolver os desafios econômicos e sociais do país. "Obama, por sua vez, tentará mobilizar a base do partido, valendo-se da retórica inspiradora usada por ele em 2008", afirmou Mann.

No discurso em que aceitará formalmente a nomeação, na quarta-feira, Obama terá diante de si uma plateia racialmente muito mais diversa do que a massa de eleitores brancos presente em Tampa.

Estranhos no ninho. Ao contrário do republicano, porém, Obama teve de enfrentar um pequeno calvário para manter o maior evento democrata do ano em um Estado sulista. Ativistas em favor dos direitos civis dos gays prometem protestar contra a legislação estadual que proíbe o casamento entre homossexuais. Sindicalistas, tradicionais aliados do Partido Democrata, devem criticar o fato de a convenção ocorrer em um Estado abertamente contrário às organizações sindicais.

Nos últimos meses, os sindicatos negaram-se a doar recursos para ajudar a montagem da convenção. Em 2008, haviam contribuído com US$ 8,6 milhões. No início de julho, o partido ainda precisava arrecadar US$ 27 milhões para o evento.

Os democratas da Carolina do Norte estão às voltas com um escândalo sexual. Seu diretor estadual, Jay Parmley, é acusado de ter assediado um funcionário da instituição, Adrian Ortega.

Ausências. Os republicanos lideram as pesquisas na disputa pelo governo do Estado, onde seus candidatos bateram os democratas na eleição de 2010 para o Congresso. O desemprego alcança 9,6% na Carolina do Norte - superior à média nacional de 8,3%. Obama, porém, venceu no Estado o senador John McCain, em 2008, embora por apenas 14 mil votos. Agora, está empatado com Romney.

O Estado ainda é território do ex-senador democrata John Edwards, concorrente de Obama nas primárias de 2008, que caiu em desgraça. Os organizadores da convenção apostam na ausência de Edwards, da mesma forma que tentam contornar a desistência de 13 importantes políticos do partido. Alguns estão temerosos em ver sua imagem vinculada à de Obama. Outros, como o governador Earl Tomblin, de Virgínia Ocidental, realmente não gostam do presidente.

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