NYT
NYT

Obama terá boas-vindas após reatar com Havana

Outras questões como o anúncio da reforma da imigração influenciarão tom de encontro

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2015 | 02h04

Isolado na última Cúpula das Américas em razão de sua política para Cuba, o presidente Barack Obama chegará no Panamá na sexta-feira fortalecido pela reaproximação com Havana, o anúncio de uma reforma no sistema de imigração americano e o fim da guerra contra as drogas, três elementos que durante anos colocaram os EUA e a América Latina em campos opostos.

Há três anos, na Colômbia, os países latino-americanos deram um ultimato a Washington e disseram que não haveria outra Cúpula das Américas sem a presença de Cuba. "Para nós que estávamos em Cartagena, foi doloroso ver como o presidente estava isolado e como ele foi um saco de pancadas", lembrou Richard Feinberg, que foi assessor especial do ex-presidente Bill Clinton e um dos arquitetos da 1.ª Cúpula das Américas, realizada em Miami em 1994.

Três anos depois de Cartagena, a atmosfera é diferente, afirmou. Em sua opinião, o acordo sobre o programa nuclear do Irã anunciado na quinta-feira é outro fator que influenciará o modo como Obama será recebido. "Ele chegará ao Panamá como o homem da diplomacia e da paz", acrescentou Feinberg.

Thomas McLarty, enviado para as Américas de Clinton e outro arquiteto da 1.ª Cúpula das Américas, avaliou que as novas políticas em relação a Cuba e às drogas "mudaram a dinâmica" do relacionamento entre os Estados Unidos e os líderes latino-americanos. "Com progresso nas duas frentes, é um bom momento para um recomeço", disse McLarty ao Estado.

A transformação econômica no continente é outro fator que fortalece Washington. Os EUA se recuperaram da crise financeira de 2008 e hoje crescem mais que outras economias avançadas. Ao mesmo tempo, os países latino-americanos sofrem o impacto da queda no preço das commodities e enfrentam um cenário de baixo crescimento e desequilíbrio fiscal.

Para McLarty, esse cenário aumenta a possibilidade de que a cúpula seja produtiva e leve a avanços no relacionamento entre EUA e nações do Sul. "A economia americana está em boa situação em comparação com muitas outras economias e isso tem impacto positivo sobre investimentos e comércio."

A Venezuela está entre os países mais golpeados pelo coquetel de queda no preço de petróleo, inflação elevada, baixo crescimento e déficit nas contas públicas. Nos anos de cotação recorde do petróleo, o então presidente, Hugo Chávez, morto em 2013, consolidou sua influência no Caribe e na América Central com a venda do produto a preços subsidiados. O arranjo garantiu a Caracas o apoio da maioria dos países da região na Organização dos Estados Americanos. Com isso, Chávez e seu sucessor, Nicolás Maduro, conseguiram impedir que a entidade discutisse direitos humanos e democracia na Venezuela.

A queda no preço do petróleo colocou em risco a sobrevivência da Petrocaribe e tornou precário o fornecimento de energia à região. Pelo acordo, os países pagavam parte do preço do produto à vista e financiavam o restante por 25 anos a juros baixos.

Os EUA reagiram à situação com a realização de uma cúpula sobre segurança energética do Caribe em janeiro, sob o comando do vice-presidente Joe Biden. Antes de viajar ao Panamá, Obama vai à Jamaica na quinta-feira, para reunião com os países da Comunidade do Caribe na qual a questão energética será o tema central. Com o movimento, Washington tenta reconstruir sua influência em uma região que esteve à sombra de Caracas na última década.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.