Obama terá dificuldades para mudar política regional

Especialistas ouvidos pelo ?Estado? dizem que o futuro presidente americano terá de apresentar propostas concretas, que envolvem uma nova relação com Cuba, para ganhar a confiança dos países latino-americanos

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

Para recuperar parte do peso que os EUA tinham na América Latina, o novo presidente americano, Barack Obama, terá de chegar à cúpula das Américas de Trinidad e Tobago, em abril, munido de propostas que possam atrair os países da região, segundo quatro especialistas ouvidos pelo Estado. Em primeiro lugar, Obama terá de apresentar alguma ajuda, seja financeira ou técnica, para os países da região lidarem com os efeitos da crise financeira - vista por muitos como um mal exportado pelos EUA. "Obama terá de mostrar que entende as consequências da crise na região e precisará ajudar diretamente ou por meio do Banco Interamericano de Desenvolvimento e do Banco Mundial", diz Michael Shifter, vice-presidente do centro de estudos Diálogo Interamericano. "É claro que não estamos falando de grandes somas, porque os EUA estão com um problema doméstico enorme."O novo presidente também deve cumprir suas promessas de flexibilizar as medidas mais duras contra Cuba - como as restrições às remessas a familiares na ilha e as visitas a parentes. "As políticas para América Latina que devem sair do papel são aquelas que não exigem grandes recursos, como a indicação de um enviado especial à região e um acordo comercial com o Panamá", diz Eric Farnsworth, vice-presidente do centro de estudos Conselho das Américas, para quem Obama deveria apresentar um projeto de coordenação para a região lidar com a crise. Segundo Farnsworth, Obama pode apoiar a entrada do Brasil e do México no G-8. "Seria uma ratificação da importância do papel brasileiro em questões globais", afirma. Outros gestos de aproximação com a região, no entanto, são mais complicados. O acordo de livre comércio com a Colômbia enfrenta a oposição dos sindicalistas americanos, que apoiaram a candidatura de Obama. E as pressões protecionistas são um entrave para a melhora no relacionamento com os países da região. As mudanças nos acordos comerciais Nafta (com México e Canadá) e Cafta (com a América Central), que Obama prometeu na campanha, eram "o elefante na sala" nas conversas entre ele e o presidente mexicano, Felipe Calderón, na semana passada, segundo Maurício Cárdenas, diretor do departamento de América Latina da Brookings Institution. "Há um risco real de que sejam tomadas novas medidas protecionistas contra América Latina e contra a China, já que, ao menos por enquanto, não existe ninguém nitidamente a favor da ampliação do comércio no governo (o secretário de comércio ainda não foi indicado)", diz Cárdenas. Circulam três nomes para os altos cargos relacionados à América Latina na Casa Branca e no Departamento de Estado dos EUA: Dan Restrepo, colombiano-americano que é pesquisador do Center for American Progress e trabalhou na campanha de Obama; Arturo Valenzuela, chileno-americano que é diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade Georgetown e foi subsecretário de Estado para assuntos interamericanos no governo Clinton; e Julia Sweig, especialista em Cuba do Council on Foreign Relations.ETANOL Outras medidas improváveis são a eliminação da tarifa sobre o etanol importado e a revisão dos subsídios ao etanol de milho fabricado nos EUA - que seriam do interesse do Brasil. Ambas não tem apoio suficiente para serem aprovadas no Congresso, nem contam com a simpatia do Executivo. A futura secretária de Estado, Hillary Clinton, disse nesta semana ser "importante que a cooperação entre o Brasil e os EUA na área energética não prejudique os americanos do setor de biocombustíveis."As questões centrais no relacionamento dos EUA com a região devem ser energia, mudança climática e criminalidade, segundo especialistas. Mesmo em meio a duas guerras e à maior recessão desde os anos 30, o problema de segurança provocado pelo tráfico de drogas no México pode obrigar os EUA a prestar atenção na região, segundo Riordan Roett, diretor do programa de estudos latino-americanos da Johns Hopkins University. "A diferença desta vez é que o Congresso também está ficando preocupado com a situação - há um projeto de lei bipartidário para combater o contrabando de armas para o México", diz Roett. "A crise mexicana está se transformando numa questão de segurança nacional para os EUA", completa, após ressaltar que o último relatório do Comando Conjunto das Forças Armadas dos EUA põe o México, junto com o Paquistão, como potenciais "Estados falidos".LAÇOS HISTÓRICOS Operação Pan-americana: lançada em 1958 pelo presidente Juscelino Kubitschek, pedia que os EUA assumissem um compromisso com a erradicação da miséria na América Latina para combater o comunismo. Apesar de ter inspirado a criação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e da Associação Latino-Americana de Livre Comércio (Alalc), em 1960, a proposta foi engavetada pelos EUA, que não viam ameaça comunista na região. Aliança para o Progresso: lançada pelo presidente dos EUA, John F. Kennedy, em 1961. A ideia é a mesma de JK, mas o contexto latino-americano sofreu uma profunda alteração: a Revolução Cubana, em 1959. Diante da ameaça, Kennedy abre os cofres e investe cerca de US$ 20 milhões nos oito anos seguintes. O programa foi extinto por Richard Nixon, que assumiu o governo em 1969 Iniciativa para as Américas: proposta do presidente dos EUA, George Bush pai, de 1990. Washington busca a reaproximação política e uma compensação para a paralisação das discussões comerciais da Rodada do Uruguai. A iniciativa envolvia a renegociação da dívida externa dos países latino-americanos e a liberalização comercial no continente. Foi o sinal verde para a aceleração do Mercosul e a criação do Nafta

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