Obama toma posse em busca de diálogo com oposição e apoio para programas

Celebração discreta. Em seu segundo mandato, democrata persegue acordo com republicanos no Congresso para evitar nó fiscal que tornaria inviáveis seus projetos sociais e colocaria em risco o triunfo de seu partido nas próximas eleições presidenciais

DENISE CHRISPIM MARIN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2013 | 02h04

O presidente dos EUA, Barack Hussein Obama, iniciou ontem seu segundo e último mandato em uma cerimônia simples na Casa Branca. Hoje, no Congresso, fará seu juramento público. Terminados os festejos, amanhã, terá o desafio de melhorar o complicado diálogo com a oposição republicana, para evitar o nó fiscal que levaria ao fracasso de seu segundo governo. Ao mesmo tempo, dará a largada para sua sucessão, na eleição de 2016.

Segundo David Plouffe, conselheiro sênior da Casa Branca, Obama deverá fazer um hoje um discurso de 20 minutos, do lado de fora do Congresso, com foco especialmente no estímulo para que os cidadãos americanos - sobretudo os democratas - se envolvam mais no processo político e pressionem o Legislativo no sentido de evitar uma crise fiscal que torne inviáveis seus programas sociais.

Ontem, apenas a família, 12 convidados, 1 assessor e o presidente do Supremo Tribunal, John Roberts, diante de quem jurou cumprir a Constituição, assistiram ao juramento no Salão Azul da Casa Branca. Não houve discursos nem acenos ao público. "Bom trabalho", disse a filha caçula, Sasha, de 11 anos, ao referir-se aos últimos quatro anos. "Sim, fiz um bom trabalho", respondeu Obama.

O juramento do vice-presidente, Joe Biden, teve mais visibilidade e audiência de políticos e estrategistas de peso, entre os quais David Axelrod, a deputada Nancy Pelosi, líder democrata na Câmara, e a presidente do Partido Democrata, Debbie Schultz. Sua ambição de concorrer na eleição de 2016 foi reforçada no fim da campanha de 2012 e, em seguida, na negociação do acordo tributário, no fim de dezembro, e ao compilar o pacote de controle de armas. Biden tem 70 anos. "Podemos começar a fazer os cálculos políticos do número necessário de delegados (do Colégio Eleitoral) para a escolha do candidato democrata. Posso ver um monte de delegados aqui", afirmou à imprensa a estrategista democrata Donna Brazile, presidente na cerimônia no Observatório Naval, em Washington.

Obama já perdeu em seu gabinete uma potencial sucessora e concorrente de Biden nas primárias democratas de 2016, Hillary Clinton, ex-primeira-dama e ex-senadora. Hillary promete descansar, depois de quatro anos na liderança do Departamento de Estado e de viagens a mais de cem países. Apesar de sua recente internação por uma trombose e de seus 65 anos, ela é tida como uma candidata capaz de obter consenso no partido.

Democrata mais apagado, o governador de Nova York, Andrew Cuomo, também é apontado como potencial candidato.

Manobras políticas de curto prazo terão certamente impacto no jogo eleitoral de 2016. Obama terminou seu mandato com pobre qualidade de diálogo com a oposição republicana, ainda amarrada pelos radicais do Tea Party. A Casa Branca está em negociação com o Congresso sobre dois temas econômicos de suma importância para a sociedade americana e para o restante de sua gestão e também sobre sua política para controle de armas.

Obama deverá conseguir do Congresso autorização para elevar o limite de endividamento federal antes de meados de fevereiro, quando o atual teto de US$ 16,4 trilhões será alcançado. Portanto, tende a se livrar do risco momentâneo de ser obrigado a declarar a suspensão de pagamentos da dívida, fornecedores, servidores e militares pela primeira vez na história americana.

Os efeitos previstos dessa atitude vergonhosa para qualquer governo - como a pressão para o aumento dos juros para o consumidor e o investidor, em prejuízo do consumo e o emprego - serão contornados. Mas Obama ainda está ameaçado de ter seu governo e a sociedade americana periodicamente expostos a esse mesmo risco.

A bancada democrata na Câmara insiste em aumentar o teto da dívida por apenas três meses e resiste em dar ao presidente o poder para aumentar esse limite quando necessário. Trata-se de uma espécie de torniquete sobre o governo Obama, com poder de limitar o poder de barganha da Casa Branca em outros projetos de seu interesse, como a Reforma da Imigração, a regulamentação das reformas da Saúde e de Wall Street e o fim da guerra do Afeganistão.

Em outro tema econômico urgente, o acordo com o Congresso sobre os cortes de gastos públicos até 2022, Obama tenta preservar os gastos com programas sociais da ansiedade republicana em vê-los enxugados. A discussão se complica pelo alto grau de polarização ideológica dos dois partidos, percebido desde o início de 2011, e pela baixa tolerância de Obama a fazer concessões. A sociedade americana sofrerá com qualquer escolha final ou com a ausência de um acordo.

Os programas de saúde gratuita para os americanos pobres serão alvo de cortes de gastos públicos a partir de 2013, assim como as aposentadorias e pensões da Previdência Social. Despesas com a Defesa não serão poupadas - e isso significará restrições na estratégia americana na guerra do Afeganistão, em futuras ações militares dos EUA no exterior e nas contratações de empresas do setor. Mesmo dentro do país, já há planos para o fechamento de bases, com repercussão desastrosa para as economias locais.

O peso desses cortes e seus de efeitos dependerá do acordo a ser firmado até 28 de fevereiro. Se não houver consenso, o governo de Obama será obrigado a reduzir em US$ 100 bilhões os gastos públicos apenas neste ano, sobretudo nas áreas social e de defesa. Entre 2014 e 2022, outros US$ 446 bilhões serão podados. A retração do ritmo de recuperação econômica do país, será inevitável. A taxa de desemprego, de 7,8% em dezembro de 2012, foi a mais baixa desde igual mês de 2008, mas ainda é considerada alta. Significa a presença de 12,2 milhões de trabalhadores sem ocupação. Outros 2,6 milhões desistiram de procurar um posto e não entram nas estatísticas do desemprego.

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