Obama troca o anonimato pelo favoritismo

Senador construiu do zero uma candidatura que pode derrotar a mulher mais poderosa da atual política americana

Paul Kane e Jonathan Weisman, The Washington Post, O Estadao de S.Paulo

08 de janeiro de 2008 | 00h00

Durante o quente verão de Chicago, diante de uma queda nas pesquisas e com mídia americana com olhos voltados para Hillary Clinton, os conselheiros de Barack Obama dividiram-se. Inconformados pelo fato de o senador estar 30 pontos atrás de Hillary, alguns temiam que a arrecadação de fundos fosse prejudicada. Outros queriam uma estratégia de confronto, que apontasse contrastes com a favorita. Um conselheiro até propôs que Obama tirasse uma folga e descansasse para os meses finais da batalha. Mas Obama e seus assessores mais próximos decidiram manter o foco no plano de batalha original: preparar o terreno em Iowa, New Hampshire e Carolina do Sul, Estados que realizariam as prévias mais cedo, e transmitir uma mensagem reformista agressiva."A associação mais lógica que consigo fazer é com O. J. Simpson. Como um candidato negro pode atacar uma mulher branca?", disse o deputado democrata Jesse Jackson Jr., filho do pastor negro Jesse Jackson, pré-candidato duas vezes nos anos 80.Com a vitória no caucus de Iowa na quinta-feira, Obama abalou o senso comum da política americana, pregando a harmonia "apartidária" e tornando-se o primeiro negro a vencer as prévias no Estado.A equipe do senador não acreditava muito em uma vitória contra Hillary. Seus assessores se perguntavam como promover um candidato negro com pouca experiência política contra a mais conhecida mulher do país? Em meados do ano passado, alguns conselheiros achavam que Obama deveria ser mais duro com ela. Em vez disso, o candidato ignorou as pesquisas nacionais e construiu uma infra-estrutura de voluntários em Iowa que superou a rival. É verdade que Obama desferiu alguns golpes contra Hillary, principalmente em questões de política externa e previdência social. Contudo, ele evitou ataques diretos como os que dominaram a campanha republicana nas últimas semanas.Para aqueles que o acompanham desde quando Obama estudava direito em Harvard, seu sucesso não é surpreendente. Seus colegas dizem que sempre acreditaram que ele iria longe. No entanto, nunca imaginaram vê-lo em uma campanha presidencial.Em novembro de 2006, Obama, então um senador estreante, reuniu seus amigos mais próximos para tramar sua candidatura à Casa Branca. Na época, seus colegas viam em Hillary a mais formidável máquina política democrata de que se tinha notícia. Obama, ao contrário, não tinha nada. Nem nome.A advogada Nicole Lamb-Hale, contemporânea de Obama dos tempos de Harvard, lembra-se de como tentou manter o intenso ritmo de arrecadação em meados do ano passado diante de uma Hillary que parecia indestrutível. Nicole, que hoje trabalha como advogada em Detroit, implorou aos doadores que não levassem em conta as pesquisas nacionais, que mostravam Hillary muito à frente. Em Iowa, New Hampshire e Carolina do Sul, dizia ela, as coisas estariam mais equilibradas. "Não foi fácil", contou Nicole. "Muita gente hesitava." Obama, contudo, contou sempre com um jovem e agressivo grupo de arrecadadores de fundos para sua campanha. No fim, o azarão que se criou nas ruas de Chicago mostrou que tinha os mesmos poderes de um membro da elite de Harvard, universidade que lhe rendeu aliados não só no campo jurídico, mas também nos mais altos escalões de Wall Street.

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