Obama usa convenção para renovar campanha

Após escolher vice na chapa, candidato democrata deve partir para o ataque contra rival republicano para reverter queda nas pesquisas

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

24 de agosto de 2008 | 00h00

Após anunciar a escolha do vice de sua chapa, o senador Joe Biden, o candidato Barack Obama espera relançar sua candidatura na convenção do Partido Democrata, que começa amanhã. Obama estava ganhando de lavada de seu adversário republicano, John McCain, dois meses atrás. Agora, os dois estão tecnicamente empatados na maioria das pesquisas e Obama está em busca do embalo perdido. "Obama precisa reacender a paixão que sua campanha despertava no primeiro semestre", disse Peverill Squire, professor de Ciência Política da Universidade de Missouri. Duas mudanças na estratégia de campanha serão consolidadas na convenção. Primeiro, Obama não vai mais levar desaforo para casa. A ordem é contra-atacar sempre, por meio de aliados ou na voz do próprio candidato. A segunda mudança é o foco intensificado em política doméstica. O objetivo é retratar Obama como o único candidato que pode tirar o país da crise econômica, enquanto McCain é o "milionário alienado", alheio aos problemas da classe média. Uma boa amostra da nova face da campanha democrata veio na quinta-feira, depois de uma gafe de McCain. Durante um evento naquele dia, Obama atacou: "Alguém perguntou a McCain: ?Quantas casas você tem?? E ele disse: ?Não tenho certeza, teria de perguntar a meus assessores?. É sério, essa frase é verdadeira. Os assessores disseram que McCain tem pelo menos quatro casas, mas sabemos que ele tem sete. Esse é o mesmo McCain que disse que, para ser considerada rica, uma pessoa precisa ganhar US$ 5 milhões (na verdade isso foi uma piada em resposta ao pastor Rick Warren). Desse jeito, é natural que ele pense que a economia está indo bem."Em plena crise do mercado imobiliário, com muitos americanos perdendo suas casas, ataques como esses podem ter ressonância, acreditam assessores preocupados com os números das pesquisas.Obama perdeu muito terreno nos últimos dois meses. Na pesquisa Los Angeles Times/Bloomberg divulgada semana passada, Obama tem 45% das intenções de voto e McCain, 43% - ou seja, dentro da margem de erro. Mas o pior resultado é este: as opiniões favoráveis sobre Obama caíram de 59%, em junho, para 48%, enquanto as opiniões negativas subiram de 27% para 35%.Em outra pesquisa importante, divulgada semana passada, do The Wall Street Journal-NBC News, Obama está com 45% e McCain, 42% - a vantagem do democrata encolheu três pontos porcentuais em um mês. Os ataques negativos de McCain - principalmente os anúncios que dão a entender que Obama é uma celebridade vazia e o comparam a Paris Hilton - parecem estar funcionando.Mas o que realmente bloqueia o crescimento de Obama nas pesquisas são os eleitores ressentidos da senadora Hillary Clinton. Segundo sondagem do Wall Street Journal, 52% desses eleitores afirmam que pretendem votar em Obama, enquanto 21% declaram que votarão em McCain e 27% se dizem indecisos ou em busca de um terceiro candidato. Para Alan Abramowitz, professor de Ciência Política, esse é o principal motivo por que Obama precisa usar a convenção para tentar unir o partido. "Seu grande desafio é conquistar mais votos entre os democratas", afirmou Abramowitz. Muitos eleitores de Hillary ficaram ressentidos e não querem votar nele.McCain também teve alguns trunfos nos últimos dias que ajudaram a tirar o brilho da campanha de Obama. Seu mote de explorar petróleo em novas áreas na costa ressoou bem entre os eleitores, em época de alta nos preços da gasolina. "E o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, praticamente fez um favor a McCain ao invadir a Geórgia - o republicano é considerado o mais apto para ser comandante-chefe, viveu a Guerra Fria, e reagiu muito bem a essa crise internacional", disse Peter Brown, da Universidade Quinnipiac.Para observadores, a convenção é a grande oportunidade de Obama consolidar sua mensagem de mudança na economia. A partir de agora, Obama deve deixar de lado os discursos grandiloqüentes para milhares de pessoas e reunir-se com grupos menores de eleitores para falar sobre propostas para tirar os Estados Unidos da crise, evitar que os americanos percam suas casas e aumentar o acesso à assistência médica. Além disso, a convenção é uma oportunidade para dissipar desconfianças que ainda persistem sobre sua habilidade para ser presidente. "A convenção é uma minissérie de quatro dias na TV - o que importa é o que é mostrado em horário nobre, é a chance de o candidato vender seu peixe", afirmou Brown.Para Abramowitz, a conjuntura é favorável a Obama, já que os eleitores estão insatisfeitos com o governo do presidente George W. Bush e com a economia. "Mas ao mesmo tempo os eleitores ainda não confiam em Obama porque ele é novo, tem pouca experiência e é negro", explicou o professor. "É a chance de Obama conquistar a confiança do eleitorado e mostrar que McCain será uma continuação das políticas de Bush", acrescentou Abramowitz.

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