Obama usa 'método da bagunça' no Oriente Médio

Tentativa de reescrever estratégia da Pax Americana criando zonas de influência à distância deixa EUA em caminho intermediário e refém de conflitos

ROSS, DOUTHAT, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2015 | 02h05

É interessante recapitular em que situação se encontram os compromissos assumidos pelos EUA no Oriente Médio. No Iraque, o Exército americano combate numa aliança tácita com rebeldes financiados pelo Irã. No Iêmen, presta assistência a uma campanha contra forças que têm respaldo do Irã. Os EUA estão formalmente comprometidos com a mudança de regime na Síria, mas intervêm contra os inimigos islamistas do regime. Seus aliados mais fortes ainda são oficialmente Israel e a Arábia Saudita, mas eles são hostilizados e pressionados para que aceitem uma distensão com o Irã. E não mencionaremos a Líbia ou a Al-Qaeda - para não confundir ainda mais.

Haverá algum método nisso tudo? Um plano de mestre, no estilo do de Metternich, que somente o presidente Barack Obama e seus assessores conseguem entender? Não exatamente. O governo tem sido persistentemente surpreendido pelos acontecimentos no Oriente Médio e suas justificativas alternam-se entre o tom exasperado ("Por que vocês não tentam, já que são tão inteligentes?") e o delirante ("Assim que concluirmos o acordo com o Irã, o jogo mudará").

Se a Casa Branca de Obama chegou a esse ponto, no entanto, um elemento estratégico existe. Com hesitação, mas também com persistência, esse governo adotou uma mudança de paradigma nas relações entre EUA e Oriente Médio: seu modelo de Pax Americana mudou para uma estratégia que seus partidários chamam de "equilíbrio de poder à distância".

Segundo o sistema de Pax Americana, os EUA desfrutam de uma posição dominante numa rede formada por aliados e clientes. Os atores que se encontram fora dessa rede são considerados rebeldes ou ameaças e devem ser contidos e coagidos pelo irresistível poderio militar americano.

Teoricamente, com o tempo, os clientes os EUA se tornam mais prósperos e mais democráticos, os benefícios representados pelo fato de fazer parte dessa rede se tornam óbvios e a proteção militar se expande, tornando-se menos necessária.

Num sistema de equilíbrio de poder à distância, os clientes são menos numerosos, assim como os compromissos. As potências regionais arcam com a responsabilidade fundamental de lidar com crises. A estratégia militar dos EUA se concentra no policiamento das rotas marítimas e dos céus. A intervenção direta só é contemplada quando o equilíbrio de poder é drasticamente subvertido.

Desde a Guerra Fria, principalmente desde 1991, a ideia da Pax Americana predominou na filosofia em política externa dos EUA. No Oriente Médio, apesar disso, não houve nenhuma evolução para uma democracia na rede de aliados. Ao contrário, a corrupção alimentou terrorismo e contribuiu para a ascensão da Al-Qaeda.

Disso parte a decisão do governo Bush, depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, de tentar recomeçar do zero, transformando um país rebelde num modelo regional, um alicerce para uma nova ordem liderada pelos EUA, menos comprometida moralmente do que a antiga.

Essa ordem, evidentemente, nunca se concretizou. Ao contrário, foram necessários todos os homens do general Petraeus para manter o Iraque unido. O Irã, um mau ator diferente, acabou exercendo parte do poder e o velho problema da repressão levou à Primavera Árabe e às guerras civis que se seguiram.

Manter o modelo da Pax Americana depois desses fatos exigiria manter tropas no Iraque por anos. Washington seria forçado a optar entre bombardear o Irã ou ampliar o guarda-chuva nuclear como o da Guerra Fria sobre a maior parte do mundo árabe. E ainda não haveria respostas fáceis quanto à maneira de lidar com aliados corruptos ou os fanáticos que costumam assumir quando eles caem.

É compreensível que a Casa Branca de Obama tenha buscado um papel diferente. A retirada do Iraque e a estratégia branda em relação à "Guerra do Terror", a estranha dança com Bashar Assad, a intervenção limitada contra o Estado Islâmico - tudo isso visa a uma estratégia mais "à distância" para os problemas do Oriente Médio.

Assim como a distensão tão procurada com o Irã pressupõe que, uma vez resolvida a questão nuclear, Teerã poderá gradativamente se unir a sauditas, egípcios e israelenses numa ordem multipolar. Há dois problemas. Em primeiro lugar, o equilíbrio de poder à distância proporciona maiores benefícios quando os envolvimentos dos EUA são realmente mínimos, mas é muito difícil para uma potência hegemônica simplesmente sair de cena, desistir das expectativas e abandonar os aliados. E quando ela ainda está efetivamente envolvida em toda parte, tentando manter o equilíbrio de poder dessa ou daquela maneira com ataques aéreos ocasionais, acabará facilmente num cenário contraditório.

Em segundo lugar, as ordens multipolares muitas vezes são, na realidade, mais instáveis e violentas do que as unipolares. Portanto, terceirizar o poderio americano e esperar que o Irã, os vizinhos sunitas do Irã e Israel encontrem algum tipo de equilíbrio por própria conta provavelmente aumentará o risco das corridas armamentistas, das invasões de vizinhos e de uma guerra regional em grande escala.

Os conflitos que temos agora são suficientemente graves, mas, na ausência da contenção imposta pelo predomínio militar americano, é fácil imaginar algo pior. No mundo de hoje, no entanto, o que os americanos têm é um governo que quer acreditar que os está tirando de tais conflitos, mas numa região que, de maneira inexorável, inevitável, está puxando o país de volta. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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