Obama vai à Rússia por acordo nuclear

Presidente corre contra o tempo para aprovar pacto no Senado e desarmar 1.550 ogivas

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

Passada sua iniciativa para conter o poder da China na Ásia, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, enfrentará nesta semana o desafio de levar adiante o "reinício" das relações com a Rússia. Ele precisa garantir a aprovação do Senado americano ao tratado bilateral de redução dos arsenais nucleares, o chamado Novo Start, ainda neste ano.

Se perder o prazo, Obama provocará não só o desmonte de sua aliança com Moscou, como também dificuldades para o presidente russo, Dmitri Medvedev, e a inevitável retomada das vendas de armas russas para o Irã.

Nos cálculos da Casa Branca, o tema não pode ser deixado para 2011 por duas razões. Primeiro, porque os parlamentares eleitos em 2 de novembro tomarão posse em janeiro. No Senado, isso significará uma maioria mais estreita, de apenas três votos, para o Partido Democrata de Obama. Boa parte dos republicanos se opõe ao Novo Start.

A segunda razão está no fim da vigência do tratado anterior em 31 de dezembro. Sem o Novo Start, o novo sistema bilateral de inspeções não entrará em vigor, o que afetará a confiança mútua em relação aos estoques de armas atômicas.

O espaço de tempo para Obama trabalhar a aprovação do Novo Start é minúsculo. A discussão se dará durante o chamado lame duck (pato manco), período de negociação das pendências do Congresso em final de cada mandato. Neste ano, o pato manco se resumirá a esta semana e mais o período de 29 de novembro a 3 de dezembro. Depois, as duas Casas entram em recesso até janeiro.

O debate sobre o Novo Start, entretanto, será apenas um dos temas polêmicos a serem examinados. A bancada republicana, com o apoio de parte dos democratas, sinalizou para a Casa Branca que um tratado desta magnitude requer um período mais longo de discussões.

A assinatura do Novo Start, em abril deste ano, foi uma das vitórias do governo Obama no plano internacional. Foi também o principal passo para o "reinício" das relações bilaterais, consumado dois meses depois, durante visita de Medvedev a Washington. O tratado prevê a limitação do estoque de ogivas nucleares a 1.550 unidades e impõe tetos para os arsenais de lançadores de mísseis balísticos e de bombas equipadas com explosivo nuclear.

Além do Novo Start, o conjunto de compromissos desse "reinício" inclui o apoio dos Estados Unidos ao ingresso da Rússia na Organização Mundial do Comércio (OMC) e investimentos americanos no setor informático russo. Do outro lado, Moscou reverteu sua posição sobre o Irã. Votou em favor da resolução que impôs novas sanções contra Teerã no Conselho de Segurança das Nações Unidas, em maio, suspendeu suas operações de venda de armas ao Irã e permitiu o transporte de materiais bélicos americanos para o Afeganistão passando por território russo. Em especial, Medvedev barrou a transferência de tecnologia de fabricação do sistema antiaéreo S-300 aos iranianos.

Se o Novo Start não for aprovado pelo Senado americano até o final deste ano, Medvedev se verá enfraquecido em relação ao primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, líder reticente à aproximação EUA-Rússia.

Nesse novo contexto interno, seria provável a retomada dos negócios de Moscou com o Irã, segundo o The New York Times. Robert Kagan, do Brookings Institution concorda. "A Rússia se tornará menos cooperativa porque o Senado Republicano deve aprovar o Tratado Novo Start."

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