OBITUÁRIO-Bomba encerra luta de Benazir Bhutto pela democracia

A líder da oposição paquistanesaBenazir Bhutto, assassinada na quinta-feira num ataque suicidaem Rawalpindi, sabia muito bem dos riscos que estava correndoao decidir retomar uma campanha pública pela restauração dademocracia no Paquistão. Horas depois de voltar para o país, em outubro, depois deoito anos de um exílio auto-imposto, um homem-bomba matou quase150 pessoas num ataque cujo alvo era a comitiva em que elaestava, nas ruas de Karachi. O ataque foi seguido por ameaças de militantes vinculados àAl Qaeda, irritados com o apoio de Bhutto à guerra contra oterrorismo promovida por Washington. "É possível que tentem me assassinar", disse ela ao jornalAsharq al-Awsat pouco antes de voltar ao Paquistão. "Jápreparei minha família e meus entes queridos para qualquerpossibilidade." Apesar de ter se mantido no ostracismo pela maior parte daúltima década, a altiva Benazir continuou sendo uma daspolíticas mais reconhecidas do mundo. Em 1986, um mar de gente a recebera no Paquistão, para ondeela voltava para enfrentar um ditador militar que sete anosantes havia executado seu pai, o premiê deposto Zulfikar AliBhutto. Ela se tornou a primeira premiê mulher do mundo muçulmanoao ser eleita em 1988, aos 35 anos. Foi deposta em 1990,reeleita em 1993 e derrubada de novo em 1996, entre denúnciasde corrupção. Ela alegou que as acusações tinham motivaçãopolítica, mas em 1999 preferiu exilar-se a questioná-las. Em outubro deste ano, com 54 anos, Benazir voltou aoPaquistão para liderar o Partido do Povo do Paquistão (PPP) naseleições nacionais. Dessa vez, porém, ela esperava conseguiruma transição pacífica do governo militar do presidente PervezMusharraf --no poder desde 1999-- para uma administração civil. Mas, no início de novembro, Musharraf impôs um estado deemergência e Benazir protestou com veemência, aumentando apressão para que o presidente abandonasse seu cargo militar erealizasse eleições livres. Mesmo quando Musharraf renunciou do posto militar sobpressão internacional, no fim de novembro, Benazir e seu rivalde partido Nawaz Sharif mantiveram-no sob forte vigilância,alertando contra qualquer tentativa de fraudar as eleições. A família Bhutto já está acostumada à violência. Os doisirmãos de Benazir morreram em circunstâncias misteriosas e eladizia que matadores da Al Qaeda tentaram matá-la várias vezesnos anos 1990. Informações da inteligência dão conta de quetanto a Al Qaeda quanto o Taliban e grupos jihadistaspaquistaneses mandaram homens-bomba atrás dela. Benazir já tinha dito que, se estivesse no poder, permitiraque as forças norte-americanas atacassem alvos da Al Qaeda emterritório paquistanês. Seu nome significava "única". Ela nasceu em 1953, filha deabastados proprietários de terra. Estudou em Harvard e Oxford.Sua missão política começou em 1977, quando seu pai, o primeirolíder paquistanês eleito pelo povo, foi deposto pelo comandantemilitar Mohammad Zia-ul-Haq. O pai dela acabou sendo enforcadomenos de dois anos depois, após um julgamento controverso. Benazir lutou contra Zia por anos, sem sucesso, e foi presainúmeras vezes. Em agosto de 1988, Zia morreu num acidenteaéreo. Benazir foi eleita naquele mesmo ano e o mundo elogiou ainstalação da democracia no Paquistão. Mas muita gente no poderoso serviço de segurança do paísdesconfiava dela, e o presidente Ghulam Ishaq Khan retirou-a doposto depois de um ano e oito meses, acusando-a de corrupção.Ela acusou o governo de fraudar as eleições para levar ao poderNawaz Sharif, seu desafeto. O retorno ao poder em 1993 também durou pouco, novamentesob denúncias de corrupção. Asif Ali Zardari, o executivo com que Benazir se casou em1987, era tido como seu maior ponto fraco. Ele passou oito anospreso e foi solto sob fiança em 2004. O acordo que permitiu avolta de Benazir em outubro ao país eliminou as acusaçõescontra o marido.

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