Objetivo de Kim vai além da simples troca por ajuda

Analista chinês diz que interesse de Pyongyang é garantir a segurança da Coreia do Norte

Cláudia Trevisan, PEQUIM, O Estadao de S.Paulo

27 de maio de 2009 | 00h00

A oferta de ajuda financeira ou humanitária não vai acabar com a ambição nuclear da Coreia do Norte, que tem como principal objetivo a obtenção de garantias de que o país não será atacado pelos EUA, afirma Yan Xuetong, diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade Tsinghua, um dos mais importantes da China."Não importa quanto o mundo gaste, eles não vão trocar seu poder nuclear por ajuda internacional. A questão não é econômica, mas de segurança", disse Yan. Ele afirma que os EUA e seus aliados adotam uma política equivocada e ineficiente em relação à Coreia do Norte, que tem por pressuposto a ideia de que Kim Jong-il estaria disposto a negociar seu programa nuclear em troca de recursos financeiros. Acima da crise econômica do país estaria a percepção de insegurança do regime, diz Yan. Tecnicamente, a Coreia do Norte ainda está em guerra com os EUA e a vizinha Coreia do Sul, porque o tratado que pôs fim ao conflito entre as partes, em 1953, estabeleceu uma trégua, não um acordo de paz. O que Pyongyang quer é um acordo que normalize as relações com americanos e sul-coreanos, além da garantia de que não serão atacados. "Os EUA não querem isso. Eles querem comprar o fim do programa nuclear com dinheiro, mas os norte-coreanos não venderão, porque não podem usar dinheiro para comprar segurança", diz Yan. "A comunidade internacional tem de aprender com o que ocorreu e oferecer benefícios na área de segurança na negociação com a Coreia do Norte." Segundo ele, o teste nuclear realizado na segunda-feira representa um avanço no poderio militar de Pyongyang e indica que o país já possui capacidade para construir uma bomba nuclear. "A intenção do regime norte-coreano é obter o status de potência nuclear junto à comunidade internacional, a exemplo do que ocorreu com a Índia", afirma Yan. Nessa hipótese, bastante remota, a Coreia do Norte ratificaria o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) e assumiria o compromisso de não ceder tecnologia a terceiros. Isso significa que o diálogo sobre o desarmamento do país, realizado no âmbito da negociação de seis partes, não teria mais sentido. "Não acredito que o mundo reconheça a Coreia do Norte como legítima detentora de armas nucleares", diz Yan, que afirma, porém, que Pyongyang adotará posição igual à da Índia, que também não assinou o TNP e, ainda assim, é reconhecida como potência nuclear.Na avaliação de Yan, no atual cenário será difícil continuar as negociações de seis partes, entre Coreia do Norte, Coreia do Sul, China, Japão, Rússia e EUA. O principal objetivo da discussão é o fim das armas nucleares na Península Coreana, algo que Pyongyang parece cada vez menos disposto a aceitar. O regime de Kim Jong-il só retorna à mesa de negociação se seu status nuclear for reconhecido. Vista pela comunidade internacional como o único país capaz de detê-los, a China teria influência cada vez menor sobre Kim. "Isso ficou claro na nota divulgada ontem pelo governo chinês", afirma Yan, em referência ao fato de Pequim ter condenado o teste e afirmado que o país vizinho ignorou a "oposição da comunidade internacional."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.