AP Photo/Evan Vucci
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‘Objetivo de Trump é enfraquecer as instituições para se fortalecer’

Diretor do Ipsos nos EUA acredita que presidente optou por estratégia populista para governar com a minoria

Entrevista com

Clifford Young, diretor do instituto de pesquisas Ipsos nos EUA

Renata Tranches, O Estado de S. Paulo

25 Fevereiro 2017 | 17h42

Sem possibilidade de criar consenso nos EUA, Donald Trump foca sua estratégia na base que o elegeu e ataca as instituições para parecer mais forte diante delas. Na avaliação do diretor do instituto de pesquisas Ipsos nos EUA, Clifford Young, que atuou por 11 anos na América Latina, essa estratégia, tipicamente populista, significa atacar a imprensa e os institutos de pesquisa, que ele tenta desacreditar por não terem previsto sua vitória. 

Diante de um número ruim, Trump argumenta que as pesquisas que o avaliam são as mesmas que não previram sua vitória. O que sr. acha disso? 

O que ele está fazendo é empregar uma estratégia de atacar todas as instituições, a credibilidade de tudo, seja pesquisa, mídia, ou outros. Está tentando enfraquecer as instituições para se justificar e se fortalecer. É estratégia muito tradicional, típica de populistas. 

Mas por que ele não tem a aprovação de um populista? 

Ele ganhou com uma minoria. Está agora usando a estratégia populista para uma minoria que realmente acredita nisso. Para ser um populista, é preciso ter, por um lado, um ator político, alguém como Trump, mas é preciso uma crença de que tal tipo de estratégia vá ajudar o país, as pessoas. Nesse caso, há aí uma minoria que acredita que o sistema está quebrado. Essas pessoas somam cerca de 40%. Ele está governando com essa minoria. Ele começa num nível muito mais baixo que qualquer outro presidente moderno. Obama começou o primeiro mandato com 78%. A questão é se ele tem gordura para queimar ou não.

 

Ele conseguirá manter um governo com essa aprovação? 

Pode ser que o ponto limite dele seja mais baixo, mas até que ponto pode ir, ninguém sabe. Ele não começa seu governo em ‘lua de mel’, nem está tentando criar um consenso. A prioridade dele é falar de forma contínua para sua base, tentando se mostrar forte. Ele pode governar com 40 e poucos por cento (de popularidade). É possível. Mas, se descer, cair para perto de 30%, começará a ter problema. Seria sinal, do ponto de vista econômico, de que enfraqueceu. 

Essa não é uma estratégia muito arriscada? 

É a única jogada dele. É impossível criar um consenso. Foi uma eleição muito brutal, ele dividiu o país. Então, ele optou pela única coisa que pode fazer, que é bater o martelo para manter a própria base.

O que deu errado com as pesquisas nos EUA? 

De forma geral, as pesquisas em si foram muito bem. Se pegarmos o voto popular, o resultado deu mais ou menos dois pontos para Hillary Clinton e as pesquisas, em média, apontavam cerca de três pontos. Não houve grandes falhas. Mas houve problema naqueles que chamamos “swing states” (Estados pêndulos). Em lugares como Michigan, Wisconsin, Ohio e Flórida, as pesquisas erraram, em média, algo em torno de quatro pontos. 

Podemos comparar com o que ocorreu com o Brexit? 

É exatamente a mesma coisa. Os fatores determinantes são iguais. Sabemos que na eleição americana há dois fatores principais que determinaram a vitória de Trump. Por um lado, uma crença generalizada de que o sistema está quebrado. Por outro, a rejeição a estrangeiros, uma espécie de narcisismo. Esses fatores definem Trump. Teremos uma eleição na França com as mesmas características. Esse é um cenário global generalizado. Estamos entrando numa época de muito mais incerteza política do que no passado. 

 

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