'Objetivo é enfraquecer a mídia crítica', diz jornalista argentino

Para Jorge Liotti, diretor de faculdade de Jornalismo, meios nunca estiveram tanto na agenda do governo

Entrevista com

LUIZ RAATZ , ENVIADO ESPECIAL / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2012 | 02h07

Estado: Como é, historicamente, a relação entre imprensa e governo na Argentina?

Jorge Liotti: Nunca os meios de comunicação, nem seus interesses comerciais, estiveram tanto na agenda do governo como agora. A imprensa hoje tem setoristas de mídia, o que não ocorria antes. Mesmo no início do governo Néstor Kirchner não havia tanto confronto. Ele chegou à presidência em uma situação de debilidade política, após ter ganhado uma eleição complicada. Ele precisava crescer e consolidar-se politicamente, então teve boas relações com a imprensa, principalmente com o Clarín e o Página 12. Naquela época, os meios de comunicação não estavam na agenda. Néstor dedicou-se a outros temas, como a economia e a reforma do Judiciário. Nas eleições de 2005, quando Cristina se candidatou ao Senado, houve rusgas, mas não era uma coisa sistemática. O cenário mudou em 2008, com o locaute agropecuário, quando o Clarín rompeu com o governo.

Estado: Esta é a primeira tentativa judicial de impor penas aos meios de comunicação após a ditadura?

Jorge Liotti: Na ditadura houve censura, que foi uma coisa diferente. O controle com censura prévia, com um delegado na redação controlando o que era publicado. Hoje não há censura, mas há um nível de pressão sobre a imprensa por meio da Lei de Mídia, da distribuição de publicidade oficial e do discurso de confronto do governo

Estado: Como o senhor avalia a estratégia comunicacional do governo?

Jorge Liotti: É uma estratégia ampla e diversa, dividida em quatro eixos. Uma parte é a distribuição desigual da publicidade oficial. Muito dinheiro é dado aos meios de comunicação amigos do governo e pouco aos críticos. Além disso, houve uma ofensiva judicial, com a Lei de Mídia e a estatização da Papel Prensa, para restringir economicamente os meios críticos. Em terceiro lugar, os meios públicos cresceram e ganharam espaço na agenda pública por diversas vias. Por fim, o governo também promoveu a compra de meio de comunicação por empresários amigos.

Estado: O Grupo Clarín diz que nem todos os meios são tratados da mesma maneira na lei...

Jorge Liotti: O governo não tem tanta má vontade com outros grupos como com o Grupo Clarín. Um dos objetivos não declarados é enfraquecer o grupo.

Estado: Quais são os pontos positivos da Lei de Mídia?

Jorge Liotti: Garantir uma multiplicidade de vozes de canais e de expressão. A maioria dos artigos vai nesse sentido e isso é positivo.

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