Objetivos de Moscou no leste ucraniano

CENÁRIO: Andrew E. Kramer e Michael R. Gordon

/ NYT, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2014 | 02h00

Nos últimos dias, tanques, artilharia e infantaria cruzaram a fronteira com a Rússia, entraram numa região até agora inviolável a leste da Ucrânia. Elas atiraram contra tropas ucranianas, provocando pânico e uma retirada total não só de Novoazovsk, pequena cidade de fronteira, mas de uma ampla faixa de território. Oficiais militares ocidentais e ucranianos qualificaram como uma "invasão furtiva".

O ataque abriu uma terceira frente de batalha no leste da Ucrânia entre Kiev e separatistas pró-Rússia, com os combates nos arredores das cidades de Donetsk e de Luhansk. Exaustos, sujos e abatidos, os soldados ucranianos que fugiram de Novoazovsk para áreas mais seguras disseram ter servido de bucha de canhão para as forças vindas da Rússia. Enquanto falavam, projéteis lançados por tanques explodiam ao lado.

Alguns dos soldados que bateram em retirada ainda estavam dispostos a lutar. O comandante da sua unidade, que faz parte da Nova Brigada de Vinnytsia, insistia aos brados para os homens retornarem, sem resultado. "Muito bem, quem se recusa a lutar coloque-se de lado", disse o comandante. Onze soldados se afastaram, enquanto os demais retornaram à cidades. Algumas tropas bateram em retirada total e caótica: um ônibus urbano repleto de soldados cruzou a rodovia na direção oeste.

O comportamento das forças ucranianas corrobora afirmações de oficiais ocidentais e ucranianos de que a Rússia, apesar das persistentes negativas, vem orquestrando uma nova contraofensiva para ajudar os separatistas encurralados da República Popular de Donetsk. No sul, Moscou vem apoiando um avanço separatista na direção de um importante porto do Mar de Azov, disseram autoridades ocidentais e ucranianas. O objetivo seria abrir uma nova frente que desviaria as forças ucranianas de Donetsk e de Luhansk para apoderar-se de uma saída para o mar, caso os russos tentem estabelecer um enclave separatista na Ucrânia Oriental.

Algumas autoridades ocidentais temem que essas operações sejam parte de uma estratégia russa ainda mais ampla, para forjar uma ligação por terra com a Crimeia, península ucraniana anexada pela Rússia em março, o que desencadeou a pior crise entre Moscou e o Ocidente desde a Guerra Fria.

O uso pelo Exército russo de armamento pesado em locais dentro da Ucrânia é uma preocupação particular das autoridades militares ocidentais. Segundo elas, artilharia russa já foi usada para bombardear as forças ucranianas perto de Luhansk. E, ao lado dos sistemas antiaéreos operados por separatistas ou forças russas dentro da Ucrânia, essa artilharia tem potencial para mudar a situação na luta pelo controle do leste ucraniano.

A Rússia nega estar intervindo militarmente na Ucrânia e os separatistas dizem que estão usando equipamento ucraniano capturado. As autoridades americanas, porém, dizem estar certas de que a artilharia na área de Krasnodon, na Ucrânia, é russa, uma vez que as forças ucranianas não penetraram mais a fundo na área controlada pelos separatistas. Além disso, os separatistas não têm experiência no uso dessas armas.

Putin disse que a insurgência ucraniana é um problema interno e o governo precisa negociar um cessar-fogo. Ao juntar as ações militares russas com suas conversações políticas em Minsk, Putin parece calcular que Moscou poderia intervir na região oriental da Ucrânia com forças russas convencionais sem correr o risco de novas sanções econômicas ocidentais./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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