Armando Favaro/AE-3/5/2006
Armando Favaro/AE-3/5/2006

Obra de Paulo Coelho é proibida no Irã

Decisão foi informada pelo editor iraniano do escritor, que pediu resposta dura do governo brasileiro contra o que chamou de ''censura''

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2011 | 00h00

O escritor Paulo Coelho agiu rápido e, em poucos minutos, utilizou a internet para tornar mundial a notícia de que o Ministério da Cultura e Diretrizes Islâmicas do Irã proibira a edição de qualquer um de seus livros no país. A medida foi tomada no domingo e comunicada ao autor por e-mail pelo seu editor iraniano, Arash Hejazi.

"Não houve nenhuma justificativa para tal atitude arbitrária e esdrúxula", disse Coelho ao Estado, por telefone. Uma das explicações possíveis seria uma forma de retaliação ao fato de, em 2009, o escritor ter ajudado Hejazi a deixar o Irã depois das eleições presidenciais (leia ao lado). "O que seria um absurdo, porque, naquela época, eu estava preocupado com a segurança de Hejazi e não com política."

Coelho reproduziu o e-mail do editor em seu blog (www.paulocoelhoblog.com). No texto, Hejazi comenta que seus amigos lhe contaram que "nenhum livro com o nome "Paulo Coelho" estampado na capa terá mais autorização para ser publicado no Irã".

Junto com o texto, Coelho publicou também seus comentários - entre eles um que pede uma rígida e rápida intervenção a seu favor do governo brasileiro. "Caso contrário, vou entender o silêncio como um apoio à censura."

Reações. A primeira manifestação partiu da ministra da Cultura, Ana de Hollanda. Ontem, enquanto visitava, no Rio, o complexo de favelas do Alemão, ela condenou a medida. "Acho lamentável qualquer tipo de censura", afirmou ela, que pretendia procurar o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, para pedir mais informações sobre o caso.

Provável presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte), Antonio Grassi, que acompanhava Ana de Hollanda, também considerou "absurda" a atitude do governo iraniano. "É uma proibição que não tem qualquer sentido."

Até a noite de ontem, porém, a assessoria de imprensa do Ministério da Cultura informava que ainda não havia novidades sobre o caso. Coelho, no entanto, não admite nenhuma isenção por parte do governo brasileiro. "Se isto acontecer, seria compactuar com a decisão."

Para ele, as boas relações que o Brasil mantém com o Irã favoreceriam um possível recuo na proibição. "Eles têm muito respeito pelo nosso País e ouviriam com mais atenção um pedido brasileiro. Uma situação muito distinta se fosse um pedido feito pelos EUA."

Paulo Coelho é editado no Irã desde 1998 e já vendeu cerca de 6 milhões de exemplares no país. "Tenho certeza de que outros 5 milhões, lançados por outras 27 editoras não oficiais, também foram comercializados", diz. No ano passado, o escritor posicionou-se a favor das cópias ilegais, liberando a reprodução de sua obra. Uma das alternativas sugeridas por seu editor, aliás, é a liberação gratuita na internet dos livros traduzidos para o persa.

"Seria o caminho mais viável, pois os iranianos estão proibidos de comprar qualquer produto fora do país", escreveu.

Outra possibilidade proposta pelo editor iraniano seria uma ação mundial de caridade. Com autorização do escritor, sua mais recente obra, Aleph, seria traduzida para o farsi e o dinheiro arrecadado com o download seria destinado a obras de assistência social.

Popularidade. "O curioso é que, durante esses 13 anos, passei por diversos governos, mas nunca sofri qualquer tipo de retaliação. Daí minha surpresa com essa medida tomada da noite para o dia", disse o escritor, que visitou o Irã em 2000.

"Havia cerca de 5 mil pessoas me aguardando no aeroporto, o que comprova minha aceitação naquele país. Afinal, em nenhum dos meus escritos há alguma ofensa ao islamismo."

Coelho entende a cultura como um dos caminhos mais seguros e eficientes de união dos povos. "No momento em que todas as pontes políticas e econômicas estão ruindo, as atividades culturais permitem uma maior aproximação. Foi por causa disso, aliás, que visitei o Irã." / COLABOROU PEDRO DANTAS

LIVROS PROIBIDOS

"Memórias de Minhas Tristes Putas", Gabriel García Márquez

"O Código Da Vinci", Dan Brown

"O Zahir", Paulo Coelho (vetado desde 2005)

"A Última Tentação de Cristo", Nikos Kazantzakis

"O Contrato Social ou Princípios do Direito Político", Jean-Jacques Rousseau

"Rumo ao Destino", Akbar Hashemi Rafsanjani

"Pobreza e Adultério", Masood Dehnamaki

"O Ano Zero", Ardalan Sarafraz

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