REUTERS/Carlos Jasso
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Obrador conseguirá a revolução que prometeu no México?

O tema marcante de sua campanha foi a mensagem categórica de combate à corrupção, incluindo promessas de renunciar às benesses do cargo e transformar o luxuoso palácio presidencial em um parque público

O Estado de S.Paulo

02 Julho 2018 | 05h00

Depois de duas tentativas fracassadas, Andrés Manuel López Obrador chegou à presidência do México e transformou em votos o sentimento generalizado da população contra o establishment político.

O apoio a Obrador tem muito mais a ver com a repulsa da sociedade mexicana à situação em que o país se encontra do que com o atual ocupante da Casa Branca, Donald Trump, independentemente do que ele diz sobre um muro e quem pagará por ele. 

O tema marcante da campanha de Obrador foi a mensagem categórica de combate à corrupção, incluindo promessas de renunciar às benesses do cargo e transformar o luxuoso palácio presidencial em um parque público.

Seus adversários, por outro lado, não conseguiram se livrar do estigma de suborno e abuso de poder que envolve seus partidos, como também da espiral de violência em que estão implicados os famosos cartéis da droga do país. O presidente de saída, Enrique Peña Nieto, e seu Partido Revolucionário Institucional (PRI) ficaram totalmente desacreditados. 

Agora o eleito promete uma revolução, especialmente se o seu partido, Movimento de Regeneração Nacional, assumir um controle decisivo do Congresso. Em sua campanha, Obrador afirmou que uma “quarta transformação do México está chegando, após a independência em 1821, uma guerra civil e reformas liberais nos anos 1859 e 1869, e uma revolução iniciada em 1910”, observou a Economist. “A mudança será tão profunda como a revolução, mas sem violência”, prometeu. 

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Mas como será essa mudança? Embora López Obrador evoque o legado de líderes mexicanos pioneiros que construíram o país, como Benito Juárez e Lázaro Cárdenas, seus críticos o caracterizam como um político na linha de Hugo Chávez, morto em 2013. E alertam para seu programa de governo, segundo eles de esquerda e retrógrado, e para o risco de uma demagogia visionária – o que levou o historiador mexicano Enrique Krauze a apelidar o candidato de “messias tropical” na campanha de 2006. 

Esses temores, para alguns analistas, de certo modo são exagerados. “Não creio que o México tolerará um outro Chávez”, disse Jorge Guajardo, ex-embaixador do México na China. “Mas ele tem uma tendência autoritária que precisa ser controlada.” 

“O medo de que Obrador, na falta de um forte contrapeso político, possa se tornar muito poderoso, tem fundamento”, escreveu o jornalista Guillermo Osorno no The New York Times. “Mas é preciso seu diagnóstico do que o México necessita – uma economia doméstica mais consistente e o fim da corrupção, e a sua estratégia para combater a violência, incluindo um vasto programa de apoio aos jovens envolvidos na guerra contra as drogas.” 

Além disso, ele tem abrandado suas críticas, buscando um amplo apoio de líderes empresariais, sindicalistas e a velha guarda política. Obrador também pode cooptar elementos do PRI, que dominou o México durante a maior parte do século passado.

Como os rivais, ele fez duras críticas a Trump e ridicularizou Peña Nieto e suas humilhantes tentativas para se compor com a Casa Branca. Mas não será mais assertivo no poder. Se Trump decidir cancelar o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) alguns especialistas acham que ele agirá com muito mais calma do que outros políticos mexicanos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA

 

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