REUTERS/Carlos Jasso
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Obrador ensaia aproximação com a América Latina

Ausente em encontro da Aliança do Pacífico e Mercosul, mexicano envia futuro chanceler do país para conversas com Chile e Brasil

Beatriz Bulla, Enviada Especial / Puerto Vallarta, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2018 | 00h00

PUERTO VALLARTA, MÉXICO - Ao fazer uma campanha eleitoral centrada nas questões domésticas, o presidente eleito do México, Andrés Manuel Lopez Obrador, despertou a curiosidade da comunidade internacional sobre sua futura política externa. Por isso, AMLO, como é chamado o mexicano, era tão aguardado em Puerto Vallarta para o primeiro encontro de presidentes dos países que integram a Aliança do Pacífico e o Mercosul.

Obrador não foi ao encontro, alegando que ainda não teve sua vitória reconhecida pela Justiça. Mas sua ausência não impediu que o novo governo passasse recados sobre o tom que pretende adotar a partir de 1.º de dezembro. Enviou à cidade turística do Estado de Jalisco o primeiro escalão de seu time para conversas estratégicas.

A comitiva do novo governo foi encabeçada por Marcelo Ebrard, futuro ministro das Relações Exteriores, que circulou pelo centro de convenções acompanhado por Graciela Márquez, que ocupará a pasta de Economia, e pela secretária executiva da Comissão Econômica da América Latina e do Caribe (Cepal), Alicia Bárcena.

Por meio de seus enviados, o futuro presidente mexicano indicou que adotará uma política externa pragmática. A negociação do Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), ameaçada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, é a prioridade, e fez o futuro presidente mexicano enviar uma carta diplomática ao americano.

As dificuldades com o país vizinho, entretanto, abrem as portas para acelerar a aproximação com outros parceiros. Aqueles que se reuniram com o time do novo governo dizem que as conversas sugerem que Obrador se juntará ao esforço de integração comercial da região, se manterá a favor do multilateralismo e não pretende adotar uma mudança de rota radical na política externa. O presidente chileno, Sebastián Piñera, chegou a dizer em entrevista coletiva em Puerto Vallarta que a equipe de Obrador sinaliza que o México vai continuar como “um grande sócio” da Aliança do Pacífico.

Considerado um “peso-pesado” da equipe de Obrador, o futuro chanceler, Marcelo Ebrard, é visto como um político moderado, capaz de dialogar com os americanos e com a América Latina. A escolha de Ebrard para o cargo, na análise de um integrante da equipe de Obrador, é o maior sinal que o novo presidente poderia dar à comunidade internacional.

Alejandro Aurrecoechea, especialista em relações internacionais da consultoria mexicana Integralia, aposta que Ebrard (ex-chefe de governo da Cidade do México) poderá se cacifar durante o novo governo para disputar as próximas eleições presidenciais. “Ebrard é ambicioso e está presente na política nacional há muitos anos”, avalia Aurrecoechea, que já foi redator dos discursos do ex-presidente Felipe Calderón para assuntos de relações internacionais.

“Esperamos uma política externa de bastante continuidade, sem ser radical”, afirmou o especialista. Em Vallarta, Ebrard indicou a chilenos que o México continuará a fazer parte do Grupo de Lima, que tem pressionado pela democracia na Venezuela. Para o consultor da Integralia, a política de Obrador será menos crítica à Venezuela e a países de esquerda do que a de seu antecessor, mas sem que isso contamine negociações com os americanos e a busca por diversificação comercial na Europa e na América Latina.

Autor do livro Como as Democracias Morrem, o cientista político de Harvard Steven Levitsky considera Obrador um “político com experiência” e, “em última análise, um pragmático”, apesar de ter usado de populismo durante as eleições.

Durante a campanha eleitoral, Héctor Vasconcelos chegou a ser anunciado como virtual chanceler na equipe de Obrador. Com as universidades de Harvard e Cambridge no currículo, Vasconcelos é considerado um nome academicamente mais forte do que Ebrard, mas menos moderado.

“Acreditamos profundamente que a maneira como o México terá peso no mundo é por meio do fortalecimento interno. Primeiro queremos colocar nossa casa em ordem”, disse Vasconcelos, em maio, ao jornal El País, quando ainda era cotado para ser o futuro chanceler. Em 5 de julho, Obrador anunciou o nome de Ebrard ao posto e disse que Vasconcelos ocuparia vaga no Senado, onde seria essencial nas discussões sobre política externa.

Ebrard chegou a Puerto Vallarta na noite de segunda-feira, preparado para passar todo o dia seguinte em reuniões com representantes dos países presentes. No entanto, um chamado de Obrador às pressas o fez partir de volta para a Cidade do México na hora do almoço, cancelando parte dos compromissos agendados. O futuro chanceler mexicano fez questão de antecipar e encaixar na agenda reuniões com Chile e Brasil. Os dois países têm sido considerados, ao lado da Argentina, os maiores articuladores para a integração plena entre a Aliança do Pacífico e o Mercosul.

Tanto a equipe brasileira como a chilena convidaram Obrador, por meio de Ebrard, para visitas aos respectivos países. O ex-presidente Felipe Calderón e o presidente Enrique Peña Nieto visitaram o Brasil no período entre a eleição e o início do mandato.

O atual ministro da Economia do México, Ildefonso Guajardo, tem dito a diplomatas estrangeiros que é importante fazer a interlocução com o novo governo. A fala abre portas para que Ebrard e Graciela estejam no canal de conversa, já que o período de transição é longo no México.

Os contatos com a comunidade internacional tiveram início ainda na campanha por meio de Alfonso Rombo, futuro chefe de gabinete de Obrador, que tem feito a interlocução do então candidato a presidente com a classe empresarial. O Brasil, por exemplo, tem interesse de ampliar acordos comerciais e investimentos com o México, além de assinar projetos de cooperação na área social. Os temas foram tratados com Ebrard em Vallarta. O chanceler aproveitou o encontro para lamentar à diplomacia brasileira por Obrador não estar presente para se reunir com o presidente Michel Temer.

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